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Nuvem de Testemunhas · Personagem bíblico

Daniel: quando você precisa continuar fiel a Deus longe de casa

Daniel foi levado para longe de casa ainda jovem e continuou fiel a Deus por mais de sessenta anos, sob vários reis. A história dele mostra o Deus que reina também no lugar onde você está.

Quem foi

Daniel, o servo que orou a vida inteira longe de casa

  1. Daniel 1:1-6 (c. 605 a.C.): ainda jovem, é levado de Jerusalém para a Babilônia com outros rapazes de Judá.
  2. Daniel 5:30 a 6:3 (539 a.C.): atravessa a queda da Babilônia e continua servindo sob o novo império.
  3. Daniel 10:1 (c. 536 a.C.): no terceiro ano de Ciro, já idoso, ainda jejua, ora e recebe revelação de Deus.
Rolo de pergaminho aberto sobre mesa de madeira escura, iluminado por uma lamparina de barro diante de uma parede de tijolos azuis, à noite

O mundo em que Daniel viveu

Quem foi Daniel na Bíblia? A resposta mais conhecida vem da cova dos leões. Mas a história dele é bem maior que uma noite. É a vida inteira de um homem que continuou fiel a Deus longe de casa, sob vários reis, por mais de sessenta anos. E, do começo ao fim, o livro que leva o nome dele fala de alguém ainda maior: o Deus que reina sobre os reinos dos homens.

Tudo começa com Jerusalém cercada pelo exército de Nabucodonosor, rei da Babilônia, no terceiro ano de Jeoaquim, rei de Judá (Daniel 1:1). Logo em seguida, o texto diz quem estava por trás da derrota: “E o Senhor entregou Jeoaquim, rei de Judá, nas suas mãos, e também alguns dos utensílios do templo de Deus” (Daniel 1:2, NVI).

A primeira página do livro já responde à pergunta de todo exilado: quem governa a história quando tudo parece perdido? Os utensílios do templo foram parar na casa do tesouro de um deus estrangeiro. O Senhor continuava reinando, também ali. Anos depois, falando pelo profeta Jeremias aos exilados, o próprio Deus os chamaria de povo “que deportei de Jerusalém para a Babilônia” (Jeremias 29:4, NVI). A Babilônia não estava fora das mãos dele.

Daniel foi um dos jovens da família real e da nobreza escolhidos para servir no palácio. Deviam aprender “a língua e a literatura dos babilônios” (Daniel 1:4, NVI). Receberam nomes novos. Daniel passou a se chamar Beltessazar, e anos depois o próprio Nabucodonosor diria que o nome foi dado “em homenagem ao nome do meu deus” (Daniel 4:8, NVI). Tudo ao redor dizia a esses rapazes que eles agora pertenciam a outro rei.

Daniel foi levado para a Babilônia contra a vontade. Se você deixou a sua terra, a sua família, a sua língua, a história dele fala muito perto de você. E se você vive a fé num lugar que não a honra, uma repartição, uma universidade, uma empresa grande, a sua situação é outra, mas o Deus que sustentou Daniel é o mesmo que reina aí.

Uma decisão tomada logo no começo

Na mesa do rei, Daniel tomou a decisão que abre a sua história: não se tornaria impuro com a comida e com o vinho do palácio. O texto não diz por quê. Os comentaristas pensam nas leis alimentares de Israel e na comida oferecida aos ídolos. João Calvino, no seu comentário sobre Daniel, viu ainda outro perigo: as delícias do palácio eram uma isca para que os jovens passassem a viver como um povo estranho e esquecessem que eram filhos de Abraão.

O próprio livro ajuda a não transformar o episódio numa regra de dieta. Muitos anos depois, Daniel conta que, em três semanas de luto, não provou carne nem vinho (Daniel 10:3), sinal de que não viveu a vida toda sem eles.

Repare também no jeito. Daniel pediu permissão ao chefe dos oficiais. Propôs com respeito um teste de dez dias, só com vegetais e água, e deixou que o próprio oficial avaliasse o resultado. Nenhuma afronta, nenhum desprezo pelas pessoas ao redor. E então o texto mostra quem estava agindo: “E Deus fez com que o homem fosse bondoso para com Daniel e tivesse simpatia por ele” (Daniel 1:9, NVI).

Depois, “a esses quatro jovens Deus deu sabedoria e inteligência para conhecerem todos os aspectos da cultura e da ciência” (Daniel 1:17, NVI). A bondade do oficial veio de Deus. A sabedoria também.

Tigela de barro com legumes e grãos e um jarro de água sobre mesa simples, ao lado de uma taça de metal deixada de lado
Daniel pediu legumes e água, e não a comida do rei (Daniel 1:12).

O momento decisivo

Tudo começou numa mesa. A decisão foi de Daniel: antes de qualquer cargo, ele resolveu que continuaria pertencendo ao Senhor no palácio de outro rei. O favor foi de Deus, que inclinou o coração do oficial e deu sabedoria aos jovens. O homem que, décadas depois, ainda orava todos os dias começou aqui.

Orar com os amigos

Algum tempo depois, Nabucodonosor teve um sonho que o perturbou e exigiu que os sábios da Babilônia lhe dissessem o sonho e o seu significado. Como ninguém conseguiu, o rei mandou executar todos eles, e Daniel e os amigos estavam entre os ameaçados.

Daniel falou com prudência a Arioque, que tinha saído para executar os sábios, e foi pedir tempo ao rei (Daniel 2:14-16). Depois voltou para casa e chamou os amigos Hananias, Misael e Azarias. Pediu “que rogassem ao Deus dos céus que tivesse misericórdia acerca desse mistério” (Daniel 2:18, NVI). Diante da morte, Daniel reuniu os que partilhavam a mesma fé, e juntos pediram misericórdia.

O mistério foi revelado a Daniel de noite, numa visão. Antes de correr ao rei, ele parou para louvar:

“Louvado seja o nome de Deus para todo o sempre; a sabedoria e o poder a ele pertencem. Ele muda as épocas e as estações; destrona reis e os estabelece. Dá sabedoria aos sábios e conhecimento aos que sabem discernir. Revela coisas profundas e ocultas; conhece o que jaz nas trevas, e a luz habita com ele.” (Daniel 2:20-22, NVI)

Aqui está o segredo da fidelidade de Daniel. Ele sabia quem governava a Babilônia. O rei mais poderoso da terra podia ameaçar, promover ou matar, mas era Deus quem estabelecia e destronava reis. Quem vê isso pode servir num palácio estrangeiro sem se curvar diante do rei. Depois dessa noite, Nabucodonosor pôs Daniel como governante de toda a província da Babilônia (Daniel 2:48).

A verdade dita com amor

Anos mais tarde, Nabucodonosor sonhou de novo, e o sonho anunciava que ele seria humilhado, “para que todos os que vivem saibam que o Altíssimo domina sobre os reinos dos homens e os dá a quem quer” (Daniel 4:17, NVI). Daniel entendeu o que aquilo significava e ficou estarrecido. O rei percebeu e tentou acalmá-lo. E Daniel respondeu: “Meu senhor, quem dera o sonho só se aplicasse aos teus inimigos e o seu significado somente aos teus adversários!” (Daniel 4:19, NVI).

Esse homem tinha sido arrancado da sua terra pelo exército daquele rei. E, diante do castigo anunciado a ele, ficou abalado e desejou que o mal caísse sobre os inimigos do rei. Depois, disse toda a verdade, com respeito e coragem: aconselhou o rei a renunciar aos seus pecados, praticar a justiça e ter “compaixão dos necessitados” (Daniel 4:27, NVI).

É o retrato de quem serve num lugar estranho à fé sem endurecer e sem se dissolver. Daniel quis o bem do rei e não escondeu dele a palavra de Deus. Na carta que Jeremias mandou aos exilados, o Senhor tinha ordenado que buscassem a prosperidade da cidade e orassem por ela (Jeremias 29:7). E o capítulo termina com o próprio Nabucodonosor, restaurado, louvando o Altíssimo: “O seu domínio é um domínio eterno; o seu reino dura de geração em geração” (Daniel 4:34, NVI).

Diante de Belsazar, sem aceitar presentes

Décadas depois, já idoso, Daniel foi chamado à presença de Belsazar numa noite de festa, para ler uma inscrição que tinha aparecido na parede do palácio. O rei o recebeu como “um dos exilados que meu pai, o rei, trouxe de Judá” (Daniel 5:13, NVI) e lhe prometeu honras. Daniel respondeu: “Podes guardar os teus presentes para ti mesmo e dar as tuas recompensas a algum outro” (Daniel 5:17, NVI). E leu a inscrição assim mesmo.

A palavra de Deus não estava à venda. “Naquela mesma noite Belsazar, rei dos babilônios, foi morto” (Daniel 5:30, NVI). Era o ano de 539 a.C. O império que tinha levado Daniel caiu, e Daniel continuou de pé.

O mesmo costume, no dia do decreto

Sob o novo império, no tempo do rei Dario, Daniel se destacou tanto que os outros governantes procuraram um motivo para acusá-lo, “mas nada conseguiram. Não puderam achar nele falta alguma, pois ele era fiel; não era desonesto nem negligente” (Daniel 6:4, NVI). Conseguiram do rei um decreto que proibia, por trinta dias, orar a qualquer deus ou homem que não fosse o rei. Daniel, ao saber, foi para casa e orou ao seu Deus, como costumava fazer. O devocional Quando você só consegue orar na hora da aflição se demora nesse dia. Aqui basta ver que a oração do capítulo 6 é a mesma de uma vida inteira.

Daniel foi lançado na cova e saiu dela sem nenhum ferimento, “pois ele tinha confiado no seu Deus” (Daniel 6:23, NVI). O livramento veio de Deus, e a confiança já estava ali antes da cova.

Uma oração que nasceu da leitura

No primeiro ano de Dario, Daniel estava lendo as Escrituras. Ele conta que compreendeu “pelas Escrituras, conforme a palavra do Senhor dada ao profeta Jeremias, que a desolação de Jerusalém iria durar setenta anos” (Daniel 9:2, NVI).

Os setenta anos estavam escritos em Jeremias 25:11-12 e 29:10. Um homem já idoso, com décadas de serviço e de oração, continuava aprendendo com a Palavra. E o que leu o levou a orar: “Por isso me voltei para o Senhor Deus com orações e súplicas, em jejum, em pano de saco e coberto de cinza” (Daniel 9:3, NVI).

A oração começa pela grandeza de Deus, “que manténs a tua aliança de amor com todos aqueles que te amam” (Daniel 9:4, NVI), e segue com uma confissão em que Daniel se inclui: “nós temos cometido pecado e somos culpados” (Daniel 9:5, NVI). O homem em quem os inimigos não acharam falta disse “nós”. E, no fim, apoiou tudo na misericórdia:

“Inclina os teus ouvidos, ó Deus, e ouve; abre os teus olhos e vê a desolação da cidade que leva o teu nome. Não te fazemos pedidos por sermos justos, mas por causa da tua grande misericórdia. Senhor, ouve! Senhor, perdoa! Senhor, vê e age! Por amor de ti, meu Deus, não te demores, pois a tua cidade e o teu povo levam o teu nome.” (Daniel 9:18-19, NVI)

Ele ainda estava orando, “confessando o meu pecado e o pecado de Israel, meu povo” (Daniel 9:20, NVI), quando a resposta chegou. E o mensageiro lhe disse: “Assim que você começou a orar, houve uma resposta, que eu lhe trouxe porque você é muito amado” (Daniel 9:23, NVI). A oração de Daniel nascia da Palavra, confessava o pecado e se lançava na misericórdia de um Deus que o amava.

Margem de um grande rio ao amanhecer, com juncos e água mansa
Já idoso, Daniel estava à margem do Tigre quando recebeu a última visão (Daniel 10:4).

Até o fim

“Daniel permaneceu ali até o primeiro ano do rei Ciro” (Daniel 1:21, NVI), e “prosperou durante os reinados de Dario e de Ciro, o Persa” (Daniel 6:28, NVI). No terceiro ano de Ciro, ele ainda buscava a Deus. Passou três semanas chorando, sem comer nada saboroso, e estava junto à margem do Tigre quando recebeu uma revelação (Daniel 10:1-4). Ali o mensageiro lhe disse que, desde o primeiro dia em que ele decidiu “buscar entendimento e humilhar-se diante do seu Deus”, as suas palavras foram ouvidas (Daniel 10:12, NVI).

O jovem que decidiu na mesa do rei é o velho que decidiu buscar entendimento à beira do rio. Entre uma cena e outra, mais de sessenta anos de fidelidade. E a última palavra que o livro dirige a ele é uma promessa:

“Quanto a você, siga o seu caminho até o fim. Você descansará e, então, no final dos dias, você se levantará para receber a herança que lhe cabe.” (Daniel 12:13, NVI)

Também humano: o homem que ficou sem forças

A Escritura não conta nenhuma queda de Daniel, e esta biografia não inventa nenhuma. Mas ele mesmo, na oração, confessou “o meu pecado” junto com o do povo (Daniel 9:20, NVI). E o livro mostra, com honestidade, um homem frágil. Depois das visões, ele conta que ficou agitado no espírito e aterrorizado (Daniel 7:15). O rosto empalideceu (7:28). “Eu, Daniel, fiquei exausto e doente por vários dias. Depois levantei-me e voltei a cuidar dos negócios do rei” (Daniel 8:27, NVI). À beira do Tigre, ficou “sem forças, muito pálido” e quase desfaleceu (Daniel 10:8, NVI). Admitiu que não entendia tudo: “Eu ouvi, mas não compreendi” (Daniel 12:8, NVI).

Repare no que Deus fez com esse homem sem forças. O mensageiro o tocou e disse: “Não tenha medo, você, que é muito amado. Que a paz seja com você! Seja forte! Seja forte!” (Daniel 10:19, NVI). E Daniel conta que se sentiu fortalecido. A firmeza de Daniel vinha de Deus. O mesmo Senhor que deu favor ao jovem deu forças ao velho.

O que aprendemos com Daniel

  1. O Altíssimo domina sobre os reinos dos homens: Deus entregou Jerusalém, deu favor a Daniel, estabeleceu e destronou reis. Ele reina também no lugar onde você está hoje, por mais estranho que ele seja à fé.
  2. A fidelidade se decide cedo e se renova a cada dia: Daniel decidiu no começo e continuou decidindo por décadas, com respeito pelas pessoas e sem negociar a verdade. O favor e a sabedoria vieram de Deus, como graça.
  3. A oração se alimenta da Palavra, se faz com os irmãos e se apoia na misericórdia: Daniel orou com os amigos, orou a partir do que leu em Jeremias e pediu a Deus por causa da grande misericórdia dele. Nenhum de nós ora com base nos próprios méritos.

Perguntas para reflexão

  1. Que pequena decisão de fidelidade você precisa tomar de novo, no lugar onde vive, trabalha ou estuda?
  2. Com quais irmãos você pode orar quando a pressão apertar, como Daniel orou com os amigos?
  3. O que você pode pedir a Deus, hoje, em favor da cidade ou do lugar onde ele colocou você?

Oração

Senhor, tu reinas sobre os reinos dos homens, e também sobre o lugar onde eu vivo e trabalho. Obrigado porque nenhum canto desta terra está fora das tuas mãos. Dá-me um coração decidido a pertencer a ti, com respeito pelas pessoas ao meu redor e sem negociar a tua verdade. Ensina-me a orar a partir da tua Palavra e com os meus irmãos, todos os dias. Quando as forças faltarem, lembra-me de que sou amado por ti, e sustenta-me até o fim do caminho. Em nome de Jesus. Amém.

Fontes e para ler mais

  • Bíblia Sagrada, Nova Versão Internacional. Biblica, Inc., 1993, 2000.
  • Baldwin, Joyce G. Daniel: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, Série Cultura Bíblica, 1983.
  • Wallace, Ronald S. A mensagem de Daniel. São Paulo: ABU Editora, série A Bíblia Fala Hoje, 1985.
  • Walvoord, John F. Daniel: The Key to Prophetic Revelation. Chicago: Moody Press, 1971.
  • Calvino, João. Commentaries on the Book of the Prophet Daniel. Tradução de Thomas Myers. Calvin Translation Society. Domínio público.

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“Portanto, também nós, uma vez que estamos rodeados por tão grande nuvem de testemunhas, livremo-nos de tudo o que nos atrapalha e do pecado que nos envolve, e corramos com perseverança a corrida que nos é proposta, tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé (...)” (Hebreus 12:1-2, NVI)

Daniel orava todos os dias, muito antes do decreto. O devocional sobre Daniel 6:10 fica com esse costume e mostra como começá-lo hoje.