Quem foi
Charles Haddon Spurgeon, o pregador que conheceu o escuro
- 1850: Aos 15 anos, num domingo de neve, converte-se numa capela metodista primitiva de Colchester, ao ouvir Isaías 45:22.
- 1856: Sete pessoas morrem no pânico do Surrey Gardens Music Hall, em Londres, durante um culto dirigido por ele, e ele passa dias de profundo abatimento.
- 1892: Morre em Menton, na França, aos 57 anos, depois de longos anos de doença.
Domingo à noite. O culto acabou, as luzes da igreja se apagaram, e você voltou para casa com a voz cansada de quem falou de Deus o dia inteiro. Agora a casa silenciou, e o peso que você carregou escondido durante o serviço volta a sentar-se ao seu lado. Como consolar os outros, se você mesmo está assim? Charles Spurgeon conheceu essas noites. Ele contou aos seus alunos que havia domingos à noite em que se sentia inteiramente esgotado, como se a vida tivesse escorrido dele. Saber quem foi Charles Spurgeon é conhecer um pregador que Deus sustentou no escuro, e por meio de quem o consolo de Deus chegou a muitos outros abatidos.
O mundo em que Spurgeon viveu
Charles Haddon Spurgeon nasceu em 19 de junho de 1834, em Kelvedon, no condado de Essex, no interior da Inglaterra. Não passou pela universidade. A sua formação veio de casa, dos livros e da igreja. Aos 19 anos, em abril de 1854, já era pastor da capela batista de New Park Street, em Southwark, ao sul do rio Tâmisa, na Londres vitoriana. Serviria naquela cidade até o fim do seu ministério.
Spurgeon era batista e calvinista. Pregava a graça soberana de Deus, que salva pecadores que nada têm a oferecer, e Cristo crucificado no lugar do pecador. Como mostra Iain Murray em O Spurgeon que foi esquecido, foi essa teologia que ele defendeu até o fim. E foi ela que lhe deu chão debaixo dos pés nos anos de trevas: quem sabe que a salvação vem inteira de Deus não precisa encontrar dentro de si a força para se levantar.
Um rapaz, uma nevasca e um versículo
No domingo 6 de janeiro de 1850, Spurgeon tinha 15 anos. Uma nevasca o desviou do caminho que pretendia fazer em Colchester, e ele entrou numa pequena capela metodista primitiva. No lugar do pastor, pregou um leigo de quem a história não guardou o nome. O homem leu Isaías 45:22, o versículo em que o Senhor chama os confins da terra a se voltarem para ele e serem salvos.
Segundo a Autobiografia de Spurgeon, o pregador apontou para ele, disse que aquele jovem parecia muito infeliz e o chamou a olhar para Jesus Cristo. Spurgeon olhou. Ele conta que, na volta para casa, os flocos de neve pareciam falar do perdão que ele tinha encontrado.
O convite chegou antes de qualquer mérito do rapaz aflito. Bastava olhar, e olhar para Cristo é o que faz quem não tem nada nas mãos. Esse evangelho Spurgeon pregaria pelo resto da vida. E ele é também o fio desta história: todas as vezes que Deus o socorreu, foi chamando-o a tirar os olhos de si e pô-los em Cristo.
Naquele mesmo ano, 1850, ele foi batizado em Isleham. Em outubro de 1851, com 17 anos, tornou-se pastor da pequena capela de Waterbeach, no campo.
O pregador de Londres
Em abril de 1854, a igreja de New Park Street chamou o jovem do interior para ser o seu pastor. Em 1856, ele se casou com Susannah Thompson. No mesmo ano nasceram os gêmeos do casal, Charles e Thomas.
Em 19 de outubro daquele ano, a igreja fez o seu primeiro culto no Music Hall dos Royal Surrey Gardens, um salão para até doze mil pessoas. Spurgeon tinha 22 anos.
Anos depois, ele contaria aos seus alunos que o próprio sucesso o assustou e o lançou no fundo do poço, ao pensar em tudo o que se abria diante dele. Quem serve a Deus sabe que o peso do chamado às vezes aparece justamente quando a obra floresce.
A noite do Surrey Gardens
Naquele domingo à noite, o salão estava cheio, e cerca de dez mil pessoas ainda se juntavam nos jardins do lado de fora. Durante a oração, alguém gritou que havia fogo e que as galerias estavam cedendo. No pânico que se seguiu, sete pessoas morreram e vinte e oito foram levadas ao hospital com ferimentos graves. Até hoje não se sabe quem gritou nem com que intenção.
Spurgeon foi tirado do púlpito e levado à casa de um amigo, onde ficou vários dias em profundo abatimento. Muitos anos mais tarde, ao falar do episódio aos alunos, disse que tinha sido esmagado por um peso enorme de angústia.
Talvez você nunca tenha vivido uma tragédia pública como essa. Mas conhece o que é carregar a dor dos outros e continuar de pé diante de quem espera uma palavra sua. O jovem pastor de Londres conheceu esse lugar muito cedo.
O momento decisivo
Nos dias de retiro na casa do amigo, Spurgeon andava sozinho num jardim quando, conta ele na sua Autobiografia, um versículo lhe veio de repente ao coração: “Por isso Deus o exaltou à mais alta posição e lhe deu o nome que está acima de todo nome” (Filipenses 2:9, NVI). A alma lhe voltou como um relâmpago, escreve ele, e o nome precioso de Jesus a trouxe de volta ao seu lugar. O jardim se tornou para ele um Éden. Ali entendeu que era apenas um soldado e que o comandante era o Senhor. Se Cristo estava exaltado, a vitória estava garantida, fosse o que fosse feito dele.
Era o mesmo caminho de 1850. Em Colchester, Deus o chamou pelo convite de Isaías 45:22 e pela voz daquele pregador, que o mandou olhar para Cristo. No jardim, Deus o levantou pondo diante dos seus olhos o mesmo Cristo, agora exaltado à mais alta posição, com todo joelho dobrado diante dele. O que pôs Spurgeon de pé foi a glória de Cristo, vista de novo.
Consolado para consolar
Duas semanas depois da tragédia, em 2 de novembro de 1856, Spurgeon voltou ao púlpito de New Park Street e pregou justamente sobre Filipenses 2:9-11. Começou dizendo que quase se arrependia de ter subido ali e que se sentia incapaz de pregar para proveito da igreja. De volta ao mesmo lugar, os sentimentos dolorosos voltavam. Mesmo assim, disse que era um consolo saber que não importava o que seria deles, desde que Cristo fosse exaltado.
Ele subiu ao púlpito ainda ferido. Deus falou por meio de um homem que ainda não estava inteiro, e continuaria a fazer isso por mais de trinta anos.
Em 1861, a igreja se mudou para o Tabernáculo Metropolitano, também em Southwark. Nos primeiros anos em Londres, Spurgeon começou a formar jovens pastores, e dessa obra nasceu o Colégio de Pastores. Em 1867, Anne Hillyard lhe entregou uma doação para acolher meninos órfãos. O orfanato de Stockwell abriu as portas em 1869 e, a partir de 1879, passou a receber meninas também. Os sermões que ele pregava eram publicados semana após semana e chegaram a mais de sessenta volumes.
Nas palestras reunidas em Lições aos meus alunos, cuja primeira série saiu na Inglaterra em 1875, uma inteira é dedicada ao abatimento de quem serve. Spurgeon fala de dentro da experiência. Diz que crises de abatimento atingem a maioria de nós. E indica o remédio que ele mesmo precisava: lançar sobre o Senhor, que não abandona os seus, o peso do presente, o pecado do passado e o medo do futuro. É a trilha de 2 Coríntios 1:4 na vida de um pastor: a consolação que ele recebia de Deus passava por ele e chegava a outros abatidos.
Susannah e o Fundo do Livro
A consolação também passou por Susannah. Ela viveu muitos anos doente, boa parte deles presa à casa. No verão de 1875, Spurgeon lhe deu uma prova do primeiro volume de Lições aos meus alunos. Ela disse que gostaria de pôr aquele livro nas mãos de todos os pastores da Inglaterra. Ele perguntou quanto ela daria para isso. Susannah juntou as moedas que guardava numa gaveta e pagou cem exemplares.
Assim nasceu o Fundo do Livro da Sra. Spurgeon. Em julho de 1875, a revista do marido convidou pastores batistas pobres a pedir os livros. No outono, ela adoeceu gravemente, e a distribuição parou até novembro. Depois recomeçou. Da sua casa, a esposa enferma enviou milhares de livros a pastores que não podiam comprá-los, e em 1886 contou essa história num livro sobre os seus dez anos a serviço do Fundo. Dois que sofriam, cada um no seu lugar, servindo juntos ao mesmo Senhor.
Em defesa da Palavra e da cruz
Em março de 1887, a revista de Spurgeon publicou o primeiro de uma série de artigos chamada The Down Grade, “o declínio”. A série defendia verdades que ele considerava inegociáveis: a inspiração e a infalibilidade das Escrituras, a morte de Cristo em lugar do pecador e a realidade do juízo. Em outubro de 1887, ele se retirou da União Batista. Em janeiro de 1888, a União aprovou um voto de censura contra ele.
A luta lhe custou caro. Perdeu amizades, reputação e apoio financeiro, e recebeu críticas duras. Segundo o historiador Darrel Amundsen, disse a um amigo que aquela luta o estava matando. Susannah escreveu depois que a batalha pela fé lhe custou a vida.
O mesmo Cristo crucificado que ele tinha encontrado na capela de Colchester era o Cristo que ele se recusava a ver diminuído. Spurgeon preferiu perder a estima de muitos a calar sobre a Palavra que o tinha salvado.
Menton: aprender a parar
O corpo de Spurgeon cedeu cedo. Ainda na casa dos trinta anos, ele passou a sofrer de gota, e na década de 1870 surgiram os sinais de uma doença crônica dos rins. A partir dessa época, foi muitas vezes a Menton, no sul da França, para se recuperar. Ia empurrado pela doença, e Deus usou esse descanso para cuidar dele. Mesmo ali, dirigia estudos bíblicos para os hóspedes do hotel, que acabavam virando cultos com gente vinda de outros hotéis.
Aos alunos, ele tinha ensinado que o tempo de descanso é economia para juntar forças novas, e que no fim fazemos mais quando às vezes fazemos menos.
Spurgeon pregou pela última vez em 7 de junho de 1891. Em outubro daquele ano partiu para Menton, e desta vez Susannah foi com ele. Era a primeira viagem dela à cidade. Por muitos anos, os dois tinham sofrido separados, ele no sul da França, ela doente em casa. Charles Spurgeon morreu em Menton em 31 de janeiro de 1892, aos 57 anos, e foi sepultado em 11 de fevereiro no cemitério de West Norwood, em Londres.
O versículo que o alcançou naquele domingo de neve continua a chamar, hoje, quem está cansado de olhar para dentro de si:
“Voltem-se para mim e sejam salvos, todos vocês, confins da terra; pois eu sou Deus, e não há nenhum outro.” (Isaías 45:22, NVI)
Também humano: o arco sempre esticado
Em 1871, numa descrição da própria carga publicada na sua revista, Spurgeon falou de uma igreja de cerca de quatro mil membros, do sermão semanal para revisar antes da publicação, da revista para editar e de umas quinhentas cartas por semana, entre muitas outras tarefas. Ele ensinava que o arco não pode ficar sempre esticado, e viveu longos anos com o arco esticado. Muitas vezes foi a doença que o fez parar. Quem serve com zelo reconhece essa tensão entre o que sabe e o que consegue viver.
A Controvérsia do Declínio também teve o seu lado humano. O historiador Mark Hopkins avalia que ela gerou mais calor que luz, que as questões teológicas centrais nunca chegaram a ser debatidas de fato, e que Spurgeon se recusou a dar nomes e provas das suas acusações. Outros, como a Spurgeon Library, entendem que essa recusa foi deliberada. Fidelidade à verdade e limites humanos podem conviver na mesma luta, e em Spurgeon conviveram.
Ele também falou abertamente das suas crises de abatimento, e é por isso que as suas palavras ainda alcançam quem sofre. Se o seu abatimento já dura semanas e pesa sobre o sono, o apetite ou a vontade de viver, procure ajuda e leia também Cristãos também ficam deprimidos, onde reunimos orientações e contatos de apoio.
O que aprendemos com Spurgeon
- Deus consola quem serve no escuro: o Deus de toda consolação não abandonou Spurgeon nos dias de trevas e continuou a falar por meio dele. O seu abatimento também não afasta você do cuidado de Deus nem do chamado que ele lhe deu.
- O socorro vem de olhar para Cristo: Deus salvou Spurgeon chamando-o a olhar para Cristo e o levantou pelo mesmo caminho, mostrando-lhe o Senhor exaltado. Quando o peso voltar, leve os olhos para quem reina sobre tudo o que pesa em você.
- O descanso também vem das mãos de Deus: Deus cuidou de Spurgeon em Menton, mesmo quando foi a doença que o levou até lá. Para você, parar, tratar-se e pedir ajuda também pode ser obediência.
Perguntas para reflexão
- Em que lugar você tem servido com a alma cansada, achando que precisaria estar bem para servir?
- Nos dias de abatimento, para onde os seus olhos costumam ir primeiro? O que mudaria se você lesse devagar, esta semana, Filipenses 2:9-11?
- Quem, perto de você, poderia receber hoje um pouco do consolo que Deus já lhe deu?
Oração
Pai das misericórdias e Deus de toda consolação, tu me vês quando a casa silencia. Tu conheces o cansaço que eu levo para o serviço e o escuro que às vezes volta comigo para casa. Tira os meus olhos de mim e põe-nos em Cristo, exaltado à mais alta posição, Senhor de tudo o que me pesa. Consola-me, para que o teu consolo passe por mim e chegue aos que dependem de mim. Dá-me humildade para parar quando for preciso e para pedir ajuda quando o peso for grande demais. Guarda os que eu sirvo, também nos dias em que eu mal consigo me guardar. Em nome de Jesus. Amém.
Fontes e para ler mais
- Eswine, Zack. A depressão de Spurgeon: esperança realista em meio à angústia. São José dos Campos: Editora Fiel, 2015.
- Dallimore, Arnold A. Spurgeon: uma nova biografia. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas (PES).
- Murray, Iain H. O Spurgeon que foi esquecido. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas (PES).
- Spurgeon, C. H. Lições aos meus alunos. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas (PES), 3 volumes.
- Spurgeon, C. H. Autobiography, compilada por Susannah Spurgeon e J. W. Harrald. Londres: Passmore & Alabaster, 1897-1900, 4 volumes (em inglês).
- Christian History, nº 29, “Charles Spurgeon: England's Prince of Preachers”, 1991, com artigos de Darrel W. Amundsen e Mark Hopkins (revista, em inglês).
- The Spurgeon Library (Midwestern Baptist Theological Seminary), spurgeon.org: artigos de Phillip Ort (2018), Alex DiPrima (2022) e Terry D. Hale (2022); “Why Spurgeon Refused to Name Names in the Downgrade Controversy”; sermão nº 101, “The Exaltation of Christ”, 2 de novembro de 1856 (em inglês).
- Spurgeons, “Our heritage”, spurgeons.org (em inglês).
- Faithfull, Nigel. “Spurgeon at Menton (2)”. Evangelical Times, 1º de setembro de 2003 (em inglês).
- Spurgeon, Susannah. Ten Years of My Life in the Service of the Book Fund. Londres: Passmore & Alabaster, 1886 (em inglês).
- Ray, Charles. Mrs. C. H. Spurgeon, capítulo 10, sobre o Fundo do Livro (em inglês; transcrição em reformedreader.org).
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“Portanto, também nós, uma vez que estamos rodeados por tão grande nuvem de testemunhas, livremo-nos de tudo o que nos atrapalha e do pecado que nos envolve, e corramos com perseverança a corrida que nos é proposta, tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé (...)” (Hebreus 12:1-2, NVI)
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