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Nuvem de Testemunhas · História da Igreja

Quem foi George Müller: quando você acha que uma vida de oração é só para alguns

Você lê sobre homens de oração e pensa que aquilo é para outra categoria de gente? George Müller dizia que a fé com que cuidou de milhares de órfãos era a mesma que Deus dá a todo cristão.

Quem foi

George Müller, o homem que pedia a Deus o pão de cada dia

  1. 1825: estudante de teologia em Halle, na Prússia, converte-se aos vinte anos numa reunião de cristãos numa casa.
  2. 1836: depois de levar tudo a Deus em oração, sem pedir dinheiro a ninguém, abre em Bristol, na Wilson Street, a primeira casa para órfãos.
  3. 1898: morre em Bristol, aos 92 anos, depois de ver mais de dez mil órfãos acolhidos nas casas que fundou.
Edifício de pedra clara do século XIX numa colina ao amanhecer, com fileiras de janelas e gramado coberto de orvalho

O mundo em que George Müller viveu

Talvez você conheça George Müller de algum livro ou sermão: o homem que cuidou de milhares de órfãos confiando só na oração. E talvez tenha saído dali pensando que aquilo é para gente de outra categoria, enquanto a sua oração vive aos trancos. Vale conhecer a vida inteira dele. Ela começa longe de qualquer pedestal, e o que ela mostra, do começo ao fim, é o Deus que o sustentou.

Müller nasceu em 27 de setembro de 1805, em Kroppenstedt, perto de Halberstadt, no reino da Prússia. O pai era coletor de impostos do governo.

Anos depois, a casa dele seria a Inglaterra. Foi em Bristol que ele abriu a porta para crianças órfãs de pai e mãe.

Um estudante que mentia e roubava

Quem conta a juventude de Müller é ele mesmo, no relato que escreveu da própria vida. E não se poupa. Antes dos dez anos, pegava o dinheiro do governo confiado ao pai, que tinha de repor a falta. Na noite em que a mãe morria, sem saber da doença dela, jogava cartas até as duas da manhã. Aos dezesseis, hospedou-se em hotéis caros sem ter como pagar e acabou preso por dívida, de 18 de dezembro de 1821 a 12 de janeiro de 1822, entre ladrões e assassinos, até o pai mandar o dinheiro.

Na primavera de 1825, entrou na Universidade de Halle para estudar teologia. Numa noite de sábado, em meados de novembro daquele ano, foi a uma reunião numa casa da cidade. Viu um irmão se ajoelhar para orar, ouviu a leitura de um capítulo da Bíblia e um sermão impresso. Escreveu depois que aquela noite foi a virada da sua vida.

Repare por onde começa a história que tanta gente admira. Deus alcançou um rapaz que mentia e roubava, e o fez seu. A vida de oração de Müller nasceu da graça que o encontrou numa sala simples, diante de uma Bíblia aberta. Se você acha que pertence a outra categoria de cristão, saiba que ele também não tinha nada a apresentar.

Pedir só a Deus

Em 1829, Müller chegou a Londres para se preparar como missionário. Adoeceu e foi descansar em Teignmouth, no condado de Devon, onde conheceu Henry Craik, que seria seu companheiro de ministério, e passou a pregar numa capela. Em 7 de outubro de 1830, casou-se com Mary Groves.

No fim daquele mesmo mês, tomou a decisão que marcaria a sua vida: não receberia mais salário fixo. O salário vinha do aluguel dos bancos da capela, e Müller viu nisso o que Tiago 2:1-6 reprova, porque o irmão pobre ficava com um lugar pior que o do rico. Resolveu levar as suas necessidades só ao Senhor, sem pedir ajuda a ninguém. Segundo o biógrafo Arthur T. Pierson, disse que manteria a decisão mesmo que a igreja retivesse o salário, porque pregava como servo de Deus.

Foi uma convicção pessoal, tomada diante de Deus. A Escritura não obriga todo cristão a esse caminho, e as igrejas e obras que apresentam com honestidade as suas necessidades também servem ao Senhor. O que a decisão revela é o desejo de Müller: depender de Deus de um jeito que todos pudessem ver.

Em 1832, Müller foi para Bristol, na Inglaterra, pastorear com Craik as capelas de Gideon e Bethesda. Em 1834, fundou com ele a Scriptural Knowledge Institution, uma obra para manter escolas, distribuir Bíblias e ajudar missionários. O que recebia, anotava no diário, e esses registros, publicados depois, mostram, dia após dia, como Deus sustentou a obra.

Livro de registros de capa de couro aberto sobre mesa de madeira, com pena, tinteiro e moedas antigas à luz de vela
Müller anotava cada oferta recebida, como testemunho de que Deus responde.

O momento decisivo

Em novembro de 1835, Müller decidiu abrir uma casa para órfãos, e deixou escrito por quê. Via cristãos que temiam a velhice, comerciantes que achavam impossível trabalhar com retidão, crentes presos a um emprego por medo da miséria. Queria dar a eles uma prova visível de que Deus continua fiel e continua ouvindo a oração. Por isso pôs as razões em ordem: primeiro, que Deus fosse glorificado, suprindo os meios sem que ninguém fosse procurado para pedir; depois, o bem espiritual das crianças; por fim, o bem material delas.

Em 5 de dezembro, lendo a Bíblia, foi tocado por um versículo do Salmo 81. Ajoelhou-se e pediu muito: uma casa, mil libras e pessoas preparadas para cuidar das crianças.

“Eu sou o Senhor, o seu Deus, que o tirei da terra do Egito. Abra a sua boca, e eu o alimentarei.” (Salmos 81:10, NVI)

Repare na ordem que ele escolheu. Antes das crianças, antes de qualquer resultado, estava a glória de Deus. Müller amou aqueles meninos e meninas e cuidou deles com seriedade até o fim da vida. O que ele mais desejava, porém, era que todos vissem que o Senhor é real, ouve quem clama a ele e é digno de toda confiança.

É a mesma ordem da promessa de Jesus: o Reino em primeiro lugar, e o resto acrescentado pelo Pai, que sabe do que precisamos. A palavra do salmo foi dita a Israel, e Müller a recebeu como convite para pedir com largueza. Ela revela o coração de quem fala: o Senhor sabe do que os seus filhos precisam, escolhe a hora e o modo, e tem prazer em supri-los.

As casas de Ashley Down

Em 11 de abril de 1836, as primeiras crianças chegaram à casa que Müller tinha alugado para meninas no número 6 da Wilson Street. Outras casas vieram depois, e o trabalho cresceu até pedir terreno próprio numa colina de Bristol, Ashley Down.

Em 1848, o movimento dos Irmãos, a que pertencia a igreja de Bethesda, dividiu-se em dois ramos. Müller ficou com o ramo chamado Irmãos Abertos. Em 1849, abriu-se em Ashley Down a primeira casa grande, para trezentas crianças. Até 1870, já eram cinco grandes casas na colina, com lugar para 2.050 crianças. Durante a vida dele, mais de dez mil órfãos foram acolhidos nelas.

É fácil transformar essa história em propaganda de uma fé que enriquece. A vida dele aponta na direção oposta. Müller pedia o necessário para uma obra de amor, com simplicidade, para crianças que não tinham quem pedisse por elas. Se você atravessa um tempo de contas apertadas, leve cada uma delas a Deus, sem medo de parecer interesseiro: o pão de cada dia está na oração que o próprio Senhor Jesus nos ensinou. E deixe que os irmãos da sua igreja saibam. Muitas vezes o cuidado de Deus chega pelas mãos deles.

Uma fé que Deus dá a todo cristão

Aqui está a parte da vida de Müller que mais consola quem se sente de fora. Ele pediu aos leitores que não pensassem que tinha o dom especial de fé de que Paulo fala, dado “a outro, fé, pelo mesmo Espírito” (1 Coríntios 12:9, NVI), junto dos dons de curar.

Nos relatos da própria vida, Müller explica que a fé que exercia era a mesma que se encontra em todo cristão. Tinha crescido pouco a pouco, ao longo dos anos, e dependia de Deus a cada momento. Era a mesma fé com que confiava a Deus os orfanatos, as próprias necessidades e todo o resto. Segundo John Piper, Müller explicava a diferença assim: pelo dom especial, alguém crê numa coisa que Deus não prometeu; pela graça da fé, o cristão crê naquilo que Deus disse na sua Palavra.

Essa fé vem de Deus, como vem a própria salvação. Paulo escreve: “Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus” (Efésios 2:8, NVI).

Se você está em Cristo, recebeu essa fé. Ela pode ser pequena hoje, e cresce quando é exercida sobre o que Deus prometeu, um pedido de cada vez.

E ela tinha uma fonte diária. Já em 1841, Müller viu com mais clareza do que nunca que a primeira tarefa de cada dia era ter a alma feliz no Senhor, e passou a começar as manhãs meditando na Palavra antes de orar. O que essa descoberta revela é simples e profundo: a oração dele se alimentava do que Deus tinha dito. Primeiro ele ouvia, depois falava. Quem confia nas promessas precisa conhecê-las, e isso pede um tempo separado, todos os dias, com a Bíblia aberta diante de Deus.

Por isso a oração de Müller ia muito além do pão. A mesma confiança sustentava as escolas, as Bíblias e os missionários que ele ajudava em Bristol, e o levou a pregar o evangelho até a velhice.

Mala de viagem de couro gasto com uma Bíblia sobre ela, junto à janela de um trem antigo
Na velhice, Müller viajou pregando sobre a fidelidade de Deus.

Os últimos anos

Em 1870, Mary adoeceu de febre reumática. Müller se apoiou no Salmo 84:11, que diz que o Senhor não recusa nenhum bem aos que vivem com integridade: se a cura dela fosse um bem, seria dada; se não fosse, ele buscaria glorificar a Deus com a mais completa submissão à sua vontade. Mary morreu num domingo, 6 de fevereiro de 1870, depois de trinta e nove anos de casamento. No funeral, o próprio Müller pregou sobre as palavras do salmo: “Tu és bom, e o que fazes é bom; ensina-me os teus decretos” (Salmos 119:68, NVI).

Disse que o Senhor foi bom e fez o bem ao dar Mary a ele, ao deixá-la com ele por tanto tempo e ao levá-la para si. O homem que tinha visto tantas respostas recebeu um “não” ao pedido mais caro do seu coração, e continuou confessando que Deus é bom.

Em 1871, casou-se de novo, com Susannah. Em 1875, aos setenta anos, começou com ela viagens de pregação que duraram dezessete anos, até 1892, e o levaram a 42 países. Na manhã de 10 de março de 1898, foi encontrado sem vida no seu quarto, em Bristol, aos 92 anos.

Também humano: o passado e a saudade

O primeiro a contar as fraquezas de Müller foi ele mesmo. Quando escreveu a própria vida, não escondeu o menino que pegava o dinheiro confiado ao pai nem o rapaz que foi preso por dívida. Quis que os leitores vissem de onde a graça o tinha tirado.

A fé também nunca o colocou acima da dor. No mesmo sermão em que louvou a bondade de Deus, confessou que sentia falta de Mary a cada dia mais, e que, como marido, sentia cada dia mais a ausência da companheira agradável, útil e amorosa. Confiança e saudade moravam juntas no mesmo coração, como moram nos filhos de Deus hoje.

E ele mesmo escreveu que, deixado a si mesmo por um só momento, a sua fé falharia. A força dele estava no Deus de quem dependia a cada manhã.

O que aprendemos com George Müller

  1. Deus é fiel e ouve a oração: a obra de Müller existiu para mostrar isso. Antes de admirar o homem, olhe para o Deus que alcançou um jovem sem nada a oferecer e o sustentou até os 92 anos.
  2. A fé que confia nas promessas é dom de Deus a todo cristão: Müller insistia que a fé dele era a mesma de qualquer filho de Deus e que cresceu devagar. Ela cresce em você quando você leva a Deus, todos os dias, as necessidades reais da sua casa e da obra dele.
  3. A Palavra alimenta a oração, e Deus é bom também quando diz “não”: a primeira tarefa da manhã é ter a alma feliz no Senhor, com a Bíblia aberta. É essa comunhão que permite dizer, como Müller diante da morte de Mary, que tudo o que Deus faz é bom.

Perguntas para reflexão

  1. Qual necessidade concreta da sua casa você ainda não levou a Deus por achar pequena ou interesseira demais?
  2. Em que momento do seu dia você pode abrir a Bíblia e deixar que ela alimente a sua oração, antes de começar a pedir?
  3. Existe algum “não” de Deus que você ainda precisa entregar a ele, confessando que ele é bom?

Oração

Pai, tu conheces a minha fé pequena e a minha oração que vive aos trancos. Obrigado porque a fé com que confio em ti também é presente teu. Ensina-me a buscar primeiro o teu Reino, a abrir a tua Palavra antes de abrir a boca e a trazer a ti o pão de hoje, as contas desta casa e as pessoas que eu amo. Quando a resposta for diferente do meu pedido, guarda o meu coração perto de ti, para que eu diga que tu és bom e que o que fazes é bom. Em nome de Jesus. Amém.

Fontes e para ler mais

  • Müller, George. Respostas à oração: experiências de George Müller com Deus. Publicações Pão Diário, coleção Legado da Fé, 2021.
  • Müller, George. George Müller: autobiografia. Tradução de Henrique Curcio. Legado Reformado, 2023 (e-book).
  • Benge, Janet; Benge, Geoff. George Müller: o guardião dos órfãos de Bristol. Série Heróis cristãos ontem e hoje. São Paulo: Shedd Publicações, 2017.
  • Müller, George. A Narrative of Some of the Lord's Dealings with George Müller, Written by Himself. Londres: J. Nisbet (parte 1 na 9ª ed., 1865). Domínio público.
  • Pierson, Arthur T. George Müller of Bristol and His Witness to a Prayer-Hearing God. 1899. Domínio público.
  • Bergin, G. Fred (comp.). Autobiography of George Müller, or A Million and a Half in Answer to Prayer. 4ª ed. Londres: Pickering & Inglis, 1929.
  • Piper, John. “Ele alimentou dez mil órfãos com oração (George Müller)”. Tradução de Paulo Reiss Junior. Fé para Hoje (Ministério Fiel), 17/07/2019. Disponível em: feparahoje.com.br.
  • Christian History, n. 128: Living on a Prayer: George Müller, the Brethren and faith missions. Christian History Institute, 2018 (em inglês). Artigos de Roger Steer (“Delighted in God”), Philip Thomas (“A substantial work”) e Tim Grass (“Müller and friends”), e linha do tempo dos editores. Disponível em: christianhistoryinstitute.org.

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“Portanto, também nós, uma vez que estamos rodeados por tão grande nuvem de testemunhas, livremo-nos de tudo o que nos atrapalha e do pecado que nos envolve, e corramos com perseverança a corrida que nos é proposta, tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé (...)” (Hebreus 12:1-2, NVI)

Müller aprendeu a pedir permanecendo na Palavra. O estudo de João 15 mostra o que Jesus promete a quem permanece nele e deixa as suas palavras permanecerem em si.