Quem foi
Irmão Lourenço (Nicolas Herman), o homem que orava entre as panelas
- Aos dezoito anos, num inverno: a visão de uma árvore sem folhas marca a sua conversão.
- Na vida religiosa: é recebido como irmão leigo entre os carmelitas descalços de Paris e serve na cozinha da comunidade; nas conversas, conta quinze anos nesse trabalho.
- 3 de agosto de 1666: data da primeira conversa com ele que ficou registrada. Conversas e cartas estão reunidas em A Prática da Presença de Deus.
Quem era Nicolas antes da cozinha
Nicolas Herman veio da Lorena. Era um homem simples e de pouco estudo. Antes da vida religiosa, foi lacaio de M. Fieubert, o tesoureiro, e foi também soldado. Ele mesmo se lembrava de si, naquele tempo, como um grandalhão desajeitado que quebrava tudo.
A árvore sem folhas e o despertar da alma
Nicolas tinha dezoito anos quando Deus o converteu. Ele mesmo diria, anos depois, que ali Deus lhe fez um favor singular. Era inverno, e ele viu uma árvore despojada das folhas.
Diante dela, considerou que, dentro de pouco tempo, as folhas voltariam, e depois viriam as flores e os frutos. Ali recebeu uma visão elevada da providência e do poder de Deus, que nunca mais se apagou da sua alma. Como ele contou na primeira das conversas que Joseph de Beaufort registrou, aquela visão o desprendeu do mundo e acendeu nele um amor tão grande por Deus que, mais de quarenta anos depois, ele não sabia dizer se esse amor tinha crescido.
O momento decisivo
Uma árvore sem folhas, num dia de inverno. Nela, Lourenço viu a providência e o poder de Deus, que fazem voltar as folhas, as flores e os frutos. Ali começou um amor a Deus que ele ainda carregava mais de quarenta anos depois.
O santuário entre as panelas
Nicolas quis entrar num mosteiro pensando que ali sofreria por causa dos seus desajeitos e das suas faltas, e assim entregaria a Deus a sua vida e os seus prazeres. Foi recebido como irmão leigo entre os carmelitas descalços de Paris, isto é, um irmão que pertencia à ordem sem ser padre e se dedicava ao trabalho da casa. Ali ficou conhecido como Irmão Lourenço da Ressurreição, e o seu serviço foi a cozinha da comunidade. Mas Deus, como ele contou depois, frustrou aquela expectativa: na vida religiosa, só encontrou contentamento.
Por natureza, Lourenço tinha grande aversão ao trabalho da cozinha. Mas acostumou-se a fazer tudo ali por amor a Deus, pedindo em todas as ocasiões a graça de fazer bem o seu trabalho. Ele mesmo contou que, assim, tudo se tornou fácil nos quinze anos em que serviu naquela cozinha.
Quando falhava em algum dever, como ele contou nas conversas, apenas confessava a falta a Deus. Reconhecia que, se Deus o deixasse entregue a si mesmo, continuaria falhando, e que só Deus podia impedi-lo de cair e consertar o que estava errado. Depois disso, não se afligia mais com o assunto.
Nos relatos reunidos junto às conversas, conta-se que Lourenço dizia não sentir diferença entre a hora do trabalho e a hora da oração. No barulho da cozinha, com várias pessoas pedindo coisas diferentes ao mesmo tempo, ele desfrutava da presença de Deus com a mesma tranquilidade das horas de oração. Numa das conversas com Beaufort, ele chamava de grande engano pensar que as horas de oração devem ser diferentes das outras.
Também humano: a década de sombras
É fácil idealizar homens como Lourenço e imaginá-los imunes às aflições da mente. A realidade documentada, contudo, é muito mais comovente.
Numa de suas cartas, Lourenço conta que sofreu muito nos primeiros dez anos. Temia não ser tão dedicado a Deus quanto desejava, seus pecados passados estavam sempre diante dele, e às vezes pensava que acreditar nos favores recebidos era presunção, ou um engano voluntário, e que não havia salvação para ele.
Nas conversas, ele conta que passou muito tempo aflito pela convicção de que seria condenado, e que ninguém no mundo teria conseguido convencê-lo do contrário. Então raciocinou consigo mesmo: tinha entrado na vida religiosa só por amor a Deus e procurado agir só por Ele; acontecesse o que acontecesse, perdido ou salvo, continuaria agindo puramente por amor a Deus, e ao menos até a morte teria feito tudo o que estava ao seu alcance para amá-lo. Essa aflição durou quatro anos, até que ele percebeu que ela nascia da falta de fé. Desde então viveu em perfeita liberdade e alegria contínua.
Na carta, ele lembra que, quando já pensava terminar os dias naquelas aflições, sem que elas diminuíssem sua confiança em Deus, viu-se mudado de repente, e sua alma sentiu uma paz interior profunda.
O que aprendemos com o Irmão Lourenço
- Deus está presente no trabalho comum: Ele não habita apenas em templos ou catedrais; está com você quando lava a louça, cuida de um filho doente, faz o trabalho do dia ou enfrenta o trânsito da manhã.
- Falar com Deus como um filho fala com o pai: Lourenço contava que não conseguia regrar a sua devoção por métodos, como outros faziam. Falava a Deus com simplicidade, de modo franco e direto, e pedia a Sua graça no meio do trabalho. Essa conversa simples pode acompanhar o seu dia inteiro, junto do tempo que você separa, todos os dias, para orar e ler a Palavra.
- Descanso na soberania de Deus: Não precisamos de circunstâncias perfeitas nem de silêncio absoluto para ter paz. A paz cristã tem a sua âncora no caráter de Deus.
Perguntas para reflexão
- Em que momentos da sua rotina de hoje você costuma achar que Deus está ausente ou distante?
- Como mudaria a sua postura diante das tarefas mais chatas ou repetitivas da sua semana se você as fizesse como uma oferenda pessoal a Cristo?
Oração
Senhor, ensina-me a arte simples de caminhar na Tua presença. Livra-me da ilusão de achar que só posso Te encontrar quando tudo está calmo e em silêncio. Que no meio dos meus afazeres comuns, no cansaço do trabalho e nas obrigações do lar, meu coração aprenda a sussurrar o Teu nome. Que cada gesto, por mais modesto, seja feito por amor a Ti e para a Tua glória. Em nome de Jesus. Amém.
Fontes e para ler mais
- Lawrence, Brother. The Practice of the Presence of God: the best rule of a holy life. Fleming H. Revell Company, s.d. Domínio público, disponível no Project Gutenberg (ebook 13871), em inglês. Reúne as conversas registradas por Beaufort e as cartas, e é a base de todas as paráfrases desta página.
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“Portanto, também nós, uma vez que estamos rodeados por tão grande nuvem de testemunhas, livremo-nos de tudo o que nos atrapalha e do pecado que nos envolve, e corramos com perseverança a corrida que nos é proposta, tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé (...)” (Hebreus 12:1-2, NVI)