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Nuvem de Testemunhas · Personagem bíblico

Ana, mãe de Samuel: quando a mesma dor volta a cada ano

A cada ano, a mesma viagem a Siló abria a mesma ferida. Ana levou essa dor ao Senhor e, no dia de deixar o filho no santuário, cantou que não há rocha como o nosso Deus.

Quem foi

Ana, a mulher que levou ao Senhor a dor de cada ano

  1. 1 Samuel 1:7: A cada viagem ao santuário de Siló, a rival a provoca, e Ana chora e não come.
  2. 1 Samuel 1:19-20: O Senhor se lembra dela, e nasce Samuel.
  3. 1 Samuel 1:28 e 2:1: Ana dedica o menino ao Senhor em Siló e ora o seu cântico.
Pequena túnica de linho cru dobrada sobre um banco de madeira rústica, ao lado de um cesto de fios e de um fuso, à luz de uma lamparina de barro

Mais um encontro de família terminou. Você voltou para casa, sentou-se na beira da cama e percebeu que a ferida de sempre estava aberta outra vez. Não aconteceu nada de novo. Foi a mesma comparação, o mesmo comentário, o mesmo silêncio que ninguém à mesa notou. E você sabe que no próximo ano vai ser igual. Ana, mãe de Samuel, conheceu uma dor assim, que voltava com a mesma data e o mesmo caminho. A história dela, em 1 Samuel 1 e 2, mostra a quem ela levou essa dor e o que ela aprendeu a cantar sobre Deus.

O mundo em que Ana viveu

Ana viveu no fim do tempo dos juízes, quando Israel ainda não tinha rei. O livro de Juízes termina com uma frase que descreve bem aquela época: “Naquela época não havia rei em Israel; cada um fazia o que lhe parecia certo” (Juízes 21:25, NVI). O povo adorava em Siló, ao norte de Betel, onde estavam a Tenda do Encontro e a arca da aliança. O sacerdote era Eli, e com ele serviam os seus dois filhos, Hofni e Fineias. A Escritura diz sem rodeios que eles “eram ímpios; não se importavam com o Senhor” (1 Samuel 2:12, NVI).

Ana era casada com Elcana, um homem dos montes de Efraim que morava em Ramá. Todos os anos, ele subia com a família a Siló para adorar e oferecer sacrifícios ao Senhor. Elcana tinha duas mulheres, Ana e Penina. A Escritura registra esse lar como ele era, sem aprovar o que havia de errado nele, e é ali dentro que começa a dor de Ana.

Uma dor que voltava todo ano

“Penina tinha filhos, Ana, porém, não tinha” (1 Samuel 1:2, NVI). No dia do sacrifício, Elcana repartia porções da carne com Penina e com todos os filhos e filhas dela. A Ana ele dava uma porção dupla, e o texto explica o motivo: “porque a amava, apesar de que o Senhor a tinha deixado estéril” (1 Samuel 1:5, NVI).

O versículo seguinte diz a mesma coisa de novo: “E porque o Senhor a tinha deixado estéril, sua rival a provocava continuamente, a fim de irritá-la” (1 Samuel 1:6, NVI). E o próximo diz quando: “Isso acontecia ano após ano. Sempre que Ana subia à casa do Senhor, sua rival a provocava e ela chorava e não comia” (1 Samuel 1:7, NVI). A ferida se abria justamente na viagem para adorar, no dia da festa, perto do santuário.

Elcana amava Ana de verdade. Comentaristas antigos, como Joseph Benson, veem nele um marido exemplar, que a amava ainda mais para consolá-la na aflição. Matthew Henry tira daí uma lição simples: quem ama não acrescenta aflição ao aflito. Mesmo assim, as perguntas de Elcana, cheias de carinho, não chegavam até a ferida: “Ana, por que você está chorando? Por que não come? Por que está triste? Será que eu não sou melhor para você do que dez filhos?” (1 Samuel 1:8, NVI).

São quatro perguntas, e o texto não registra nenhuma resposta de Ana. Há dores que nem o amor de quem está ao nosso lado consegue alcançar.

E há o versículo mais difícil desta história. Duas vezes a Escritura diz que foi o Senhor quem deixou Ana estéril. O texto não dá o motivo, e nós não vamos preencher esse silêncio. Mas guarde essa frase: o cântico de Ana vai responder a ela.

Se você vive em casa uma provocação que se repete, a Escritura não chama isso de pouca coisa: o texto dá a Penina o nome de rival e registra o choro de Ana. Você não precisa guardar ressentimento, e também não precisa suportar a humilhação em silêncio. Procure o seu pastor ou alguém de confiança na igreja e conte o que acontece.

Estrada de terra entre colinas pedregosas e oliveiras ao amanhecer, sem ninguém no caminho
Ano após ano, a família subia a Siló para adorar o Senhor (1 Samuel 1:3).

Em Siló, diante do Senhor

Numa dessas viagens, depois da refeição, “Ana se levantou e, com a alma amargurada, chorou muito e orou ao Senhor” (1 Samuel 1:9-10, NVI). Pediu ao Senhor dos Exércitos que desse atenção à humilhação da sua serva e se lembrasse dela, e fez um voto: se ele lhe desse um filho, ela o dedicaria ao Senhor por todos os dias da vida dele. Eli, que a observava, entendeu errado a oração silenciosa e depois a despediu com uma bênção. Contamos essa cena com mais vagar no devocional Quando você ora há anos pela mesma coisa.

Repare a quem Ana se dirige. O texto tinha dito duas vezes que foi o Senhor quem fechou o seu ventre. E é exatamente a esse Senhor que ela leva a sua dor. A Escritura não a mostra procurando outro socorro. Ela corre para a mão que governa a sua vida, e não há mão mais segura. É o caminho de quem crê na soberania de Deus: quando a dor vem de onde não entendemos, é para ele mesmo que nós voltamos.

O voto de Ana foi livre, e ela o fez de coração. A resposta viria de Deus, no tempo dele.

O Senhor se lembrou dela

Na manhã seguinte, eles adoraram o Senhor e voltaram para casa, em Ramá. E o texto diz, com simplicidade: “Elcana teve relações com sua mulher Ana, e o Senhor se lembrou dela” (1 Samuel 1:19, NVI).

Ana tinha pedido: lembra-te de mim. E o texto responde com as mesmas palavras: o Senhor se lembrou dela. A história põe a iniciativa inteira nas mãos de Deus. Ana engravidou e, no devido tempo, deu à luz um filho, a quem chamou Samuel.

Aqui é preciso falar com cuidado. O que Deus fez por Ana não garante que a sua espera terminará do mesmo jeito. Houve mulheres que pediram um filho a vida inteira e não o tiveram, e Deus as ouviu tanto quanto ouviu Ana. O Senhor que se lembrou de Ana não se esquece de nenhuma delas, e não se esquece de você.

No ano seguinte, Elcana subiu a Siló com a família, mas Ana ficou em casa. Disse ao marido que levaria o menino depois de desmamá-lo, para que ele morasse ali para sempre. Elcana respondeu: “Faça o que lhe parecer melhor” (1 Samuel 1:23, NVI). E ela ficou em casa criando o filho até desmamá-lo.

O dia de voltar a Siló

Chegou o dia. Ana levou o menino, “ainda pequeno”, à casa do Senhor em Siló, com um novilho, farinha e uma vasilha de vinho (1 Samuel 1:24, NVI). O novilho foi sacrificado, e o menino foi levado a Eli. Ana se apresentou como a mulher que tinha orado ali, e disse:

“Era este menino que eu pedia, e o Senhor concedeu-me o pedido. Por isso, agora, eu o dedico ao Senhor. Por toda a sua vida será dedicado ao Senhor” (1 Samuel 1:27-28, NVI).

O momento decisivo

Naquele dia em Siló, Ana devolveu ao Senhor o que mais tinha pedido. Samuel tinha vindo do Senhor, e ela reconheceu diante de Eli que ele continuava sendo do Senhor. O texto registra que ali, naquele dia, houve adoração. E, antes que a família voltasse para Ramá, Ana orou. A mulher que por anos chorava na subida a Siló abriu a boca no mesmo santuário, e o que saiu dela foi um cântico sobre quem Deus é.

“Meu coração exulta no Senhor; no Senhor minha força é exaltada. Minha boca se exalta sobre os meus inimigos, pois me alegro em tua libertação.” (1 Samuel 2:1, NVI)

Um cântico sobre quem Deus é

O cântico de Ana começa pela alegria, e a alegria está no Senhor. Logo em seguida vem o versículo que abre esta página: ninguém é santo como o Senhor, não há outro além dele, não há rocha como o nosso Deus. Ana quase não fala de si e não cita Penina pelo nome. Matthew Henry observa que ela olha além do presente recebido e louva quem o deu. Keil e Delitzsch explicam a imagem: por ser o Santo e o Único, Deus é a rocha em que o justo sempre pode confiar.

Então Ana canta a verdade mais profunda da sua história:

“O Senhor mata e preserva a vida; ele faz descer à sepultura e dela resgata. O Senhor é quem dá pobreza e riqueza; ele humilha e exalta.” (1 Samuel 2:6-7, NVI)

Lembra da frase que pedimos para você guardar? O texto tinha dito que foi o Senhor quem deixou Ana estéril. Agora é a própria Ana quem confessa, com a boca cheia de louvor, que a vida e a morte, a humilhação e a exaltação estão nas mãos do Senhor. O texto não registra nenhuma explicação para os anos de espera, e o cântico também não traz. Ele descansa em outra coisa: no próprio Deus. Uma rocha só é firme se nada a move. O Deus que governa também a dor é o único em quem se pode apoiar todo o peso quando nada faz sentido. E esse mesmo Senhor “levanta do pó o necessitado e do monte de cinzas ergue o pobre” (1 Samuel 2:8, NVI).

O cântico termina com uma frase que ninguém esperaria naquele tempo: “Ele dará poder a seu rei e exaltará a força do seu ungido” (1 Samuel 2:10, NVI). Israel ainda não tinha rei. Comentaristas como Matthew Henry observam que é a primeira vez que a Escritura dá ao rei esse nome, ungido, o mesmo que chega até nós como Messias, o Cristo. O menino que Ana deixou em Siló seria, anos depois, o profeta que ungiu Davi (1 Samuel 16:13), e da descendência de Davi viria o Rei que o Pai exaltou acima de todos. Uma mulher humilhada, no santuário de Siló, cantou a esperança do Rei que viria.

Muito tempo depois, Maria, a mãe de Jesus, entoou um cântico tão parecido que comentaristas como Jamieson, Fausset e Brown notam a semelhança. Também ela se alegra em Deus, o seu Salvador, e canta o Senhor que “exaltou os humildes” (Lucas 1:52, NVI).

A túnica de cada ano

Samuel ficou em Siló e começou a servir o Senhor sob a direção de Eli. Enquanto os filhos do sacerdote tratavam com desprezo as ofertas, o texto diz que “Samuel, contudo, ainda menino, ministrava perante o Senhor, vestindo uma túnica de linho” (1 Samuel 2:18, NVI). E acrescenta um detalhe cheio de ternura:

“Todos os anos sua mãe fazia uma pequena túnica e a levava para ele, quando subia a Siló com o marido para oferecer o sacrifício anual.” (1 Samuel 2:19, NVI)

Era a mesma viagem de antes. A estrada que por anos tinha levado Ana ao choro agora a levava com uma túnica nas mãos, feita por ela para o filho que servia na casa de Deus.

Eli abençoava Elcana e Ana a cada visita. E o texto registra: “O Senhor foi bondoso com Ana; ela engravidou e deu à luz três filhos e duas filhas” (1 Samuel 2:21, NVI). O versículo começa pela bondade do Senhor. Esses filhos foram uma graça registrada na vida de Ana. O texto não os apresenta como pagamento pelo voto, nem como regra para todas as que esperam. O mesmo versículo termina voltando os olhos para Samuel, que “crescia na presença do Senhor”.

Também humana: a tristeza que ela não escondeu

A Escritura não registra pecados de Ana, e nós não vamos inventar nenhum. Mas também não a apresenta como uma mulher inabalável. Ana chorava e deixava de comer na viagem a Siló (1 Samuel 1:7). A tristeza dela era visível a ponto de o marido perguntar por que estava triste (1 Samuel 1:8). Ela orou com a alma amargurada e chorou muito (1 Samuel 1:10).

A fé levou Ana para diante de Deus com a dor inteira, sem disfarce. E ela viveu tudo isso numa casa imperfeita, com duas esposas e uma rival, num tempo em que os próprios sacerdotes de Siló desprezavam o Senhor. Deus a encontrou ali, no meio da vida como ela era.

O que aprendemos com Ana

  1. O Senhor se lembra dos seus: foi Deus quem se lembrou de Ana. Por isso a dor que volta a cada ano pode ser levada a ele todas as vezes, com as mesmas palavras ou sem palavra nenhuma.
  2. O que Deus nos dá continua sendo dele: Samuel veio do Senhor, e Ana o reconheceu no santuário. Tudo o que você recebeu das mãos de Deus pode ser confiado de volta a ele, sem medo e sem barganha.
  3. O consolo mais firme está em quem Deus é: o cântico de Ana descansa no Senhor santo, único e firme como rocha, que governa a vida e a dor. Quando as respostas faltam, a sua alma pode descansar nele.

Perguntas para reflexão

  1. Qual dor volta para você ano após ano, e você ainda não levou ao Senhor com as suas próprias palavras?
  2. O que muda no seu coração saber que o Senhor governa também essa dor e continua sendo a sua rocha?
  3. Se você escrevesse hoje algumas linhas sobre quem Deus é, sem falar do que lhe falta, o que diria?

Oração

Senhor, tu conheces a dor que volta para mim a cada ano, com as mesmas datas e os mesmos caminhos. Tu estás na mesa em que ninguém percebe o meu silêncio. Eu não sei por que carrego este peso, mas sei que a minha vida está nas tuas mãos, e é a ti que eu venho. Lembra-te de mim, como te lembraste de Ana. Guarda o meu coração da amargura e dá-me coragem para pedir ajuda quando for preciso. Tudo o que recebi veio de ti; ensina-me a confiar-te tudo de novo. E, mesmo antes de qualquer resposta, ensina-me a cantar que não há ninguém santo como tu e não há rocha como o nosso Deus. Em nome de Jesus. Amém.

Fontes e para ler mais

  • Baldwin, Joyce G. 1 e 2Samuel: introdução e comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova.
  • Davis, Dale Ralph. Comentário do Antigo Testamento: 1 e 2 Samuel. São Paulo: Cultura Cristã, 2024.
  • Chester, Tim. 1Samuel para você. Série A Palavra de Deus para Você. São Paulo: Vida Nova.
  • Henry, Matthew. Comentário Bíblico: Antigo Testamento, vol. 2 (Josué a Ester). Rio de Janeiro: CPAD.
  • Comentários antigos em inglês, de domínio público, usados nas paráfrases: Matthew Henry, Concise Commentary on the Whole Bible; C. F. Keil e F. Delitzsch, Commentary on the Old Testament; Joseph Benson, Commentary; Jamieson, Fausset e Brown, Commentary Critical and Explanatory.

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“Portanto, também nós, uma vez que estamos rodeados por tão grande nuvem de testemunhas, livremo-nos de tudo o que nos atrapalha e do pecado que nos envolve, e corramos com perseverança a corrida que nos é proposta, tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé (...)” (Hebreus 12:1-2, NVI)

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