A oração de Ana cabia no silêncio
Tem pedido que a gente faz há tanto tempo que já sabe de cor. Você fecha os olhos no culto e as mesmas palavras voltam: o filho que não vem, o casamento que pesa, o exame, alguém que você ama longe de Deus. Mais um mês passou. E às vezes dá vergonha de continuar pedindo. A oração de Ana, em 1 Samuel 1, nasceu de uma espera assim.
Ana era casada com Elcana, que tinha outra mulher, Penina. Penina tinha filhos, e Ana não. A Bíblia conta essa casa dividida sem aprová-la, e era dela que vinha boa parte da dor, porque a rival provocava Ana a cada viagem ao santuário: “Isso acontecia ano após ano” (1 Samuel 1:7, NVI). O texto diz que o Senhor a tinha deixado estéril e não explica por quê. Nós também não vamos inventar uma explicação.
Numa dessas viagens a Siló, onde ficava o santuário, Ana se levantou depois da refeição e foi orar. Com a alma amargurada, chorou muito. E o texto guarda um detalhe delicado:
“Como Ana orava silenciosamente, seus lábios se mexiam mas não se ouvia sua voz.” (1 Samuel 1:13, NVI)
Talvez nem houvesse uma frase inteira. Havia uma alma derramada diante de Deus. Matthew Henry, no seu Concise Commentary on the Whole Bible, vê nesse silêncio a fé de Ana de que Deus conhece o coração e os desejos que ele guarda.
Se as suas palavras também já acabaram, você está em boa companhia. Paulo escreve que, quando não sabemos como orar, “o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis” (Romanos 8:26, NVI). Sobre essa oração que ninguém vê, escrevemos também Quando você ora escondido e acha que é pouco.
Quando alguém entende errado a sua dor
O sacerdote Eli estava sentado junto à entrada do santuário. Ele observou a boca de Ana e concluiu que ela estava bêbada: “Até quando você continuará embriagada? Abandone o vinho!” (1 Samuel 1:14, NVI).
Talvez você conheça essa dor. Alguém olhou para a sua tristeza e viu outra coisa: falta de fé, exagero, frieza. Ser mal interpretado dói mais quando vem de gente da fé, de quem a gente esperava cuidado.
Ana respondeu com respeito e com firmeza, nas palavras do versículo que abre esta página. Disse o que era: uma mulher muito angustiada, derramando a alma diante do Senhor. Eli se enganou. Deus, que ouvia aquela oração sem som, não se enganou.
Matthew Henry, comentando essa cena, lembra que não fica bem sermos apressados em censurar os outros.
A paz chegou antes da resposta
Eli entendeu e despediu Ana com uma bênção: “Vá em paz, e que o Deus de Israel lhe conceda o que você pediu” (1 Samuel 1:17, NVI). Então vem um versículo pequeno, fácil de ler depressa:
“Ela disse: Espero que sejas benevolente para com tua serva! Então ela seguiu seu caminho, comeu, e seu rosto já não estava mais abatido.” (1 Samuel 1:18, NVI)
Repare na ordem. Ana ainda não estava grávida. Nada do que ela pedia tinha acontecido. E mesmo assim ela comeu, e o rosto já não estava abatido.
O texto não explica de onde veio essa paz. Alguns comentaristas antigos a ligam à bênção de Eli. Outros, ao próprio ato de entregar a causa a Deus: Albert Barnes, nas suas Notes on the Bible, diz que Ana tinha lançado o seu fardo sobre o Senhor, e por isso o seu espírito foi aliviado. O que o texto mostra é simples: ela saiu dali em paz antes da resposta.
No devido tempo, Ana deu à luz um filho e o chamou de Samuel, “dizendo: Eu o pedi ao Senhor” (1 Samuel 1:20, NVI). Uma nota da própria NVI observa que, em hebraico, o nome lembra o som de “ouvido por Deus”.
Isto precisa ser dito com cuidado. A história de Ana não garante que a sua terá o mesmo final. Muitas mulheres oraram a vida inteira por um filho que não veio, e Deus as ouviu do mesmo jeito. O que Ana encontrou antes do menino também está perto de você hoje: um lugar para derramar a alma diante de quem nunca entende errado.
Para viver hoje
Pegue um papel e escreva o pedido que você guarda há anos, com as suas palavras e sem enfeite. Se as palavras não vierem, fique alguns minutos em silêncio diante de Deus, como Ana. Depois, se fizer sentido, conte a uma pessoa de confiança pelo que você está orando. Uma espera longa pesa menos quando alguém sabe dela.
Oração
Senhor, tu conheces o pedido que eu faço há tanto tempo. Às vezes eu já nem sei como dizer, e mesmo assim eu venho. Recebe o que eu não consigo pôr em palavras. Quando alguém entender errado a minha dor, lembra-me de que tu não te enganas. Eu não sei como nem quando vais responder. Por isso te peço paz hoje, antes de qualquer resposta, e força para continuar diante de ti. Amém.
Continue a leitura.
Para conhecer a história de Ana por inteiro, a biografia vai do santuário de Siló ao cântico. E se quiser ficar mais tempo com o cuidado de Deus nos dias difíceis, o estudo do Salmo 23 caminha com você pelo vale.