Quem foi
Amy Carmichael, a mulher que as crianças chamavam de mãe
- 1867: nasce em Millisle, no norte da Irlanda, numa família presbiteriana.
- 1901: acolhe a primeira menina que fugiu de um templo e começa a obra de Dohnavur, no sul da Índia.
- 1931: uma queda a deixa quase sempre de cama até a morte, em 1951, sem nunca voltar à Irlanda.
Talvez a sua Bíblia esteja hoje numa mesinha perto da janela, ao lado de um remédio. Houve um tempo em que você dava aula na escola bíblica, visitava doentes, abria a casa para a igreja. Agora são os outros que vêm visitar você. E, nas tardes mais quietas, uma frase volta sem que você a diga em voz alta: já não sirvo para nada no Reino.
Esta é a história de uma mulher que resgatou crianças na Índia e passou os últimos vinte anos da vida quase sempre de cama. O Deus que a chamou quando ela era jovem é o mesmo que a sustentou naquele quarto. E é dele que esta história fala.
O mundo em que Amy viveu
Amy Beatrice Carmichael nasceu em 16 de dezembro de 1867, em Millisle, uma vila do litoral do condado de Down, no norte da Irlanda. Era a mais velha dos sete filhos de David e Catherine Carmichael, uma família presbiteriana de moleiros. Na adolescência dela, a família se mudou para Belfast, e em 1885 o pai morreu.
Belfast era uma cidade de fábricas de linho. As moças que trabalhavam nelas usavam xale em vez de chapéu e não eram bem-vindas nas igrejas da cidade. Era também um tempo de fervor missionário. A Convenção de Keswick, na Inglaterra, reunia cristãos em torno da santidade de vida e do chamado para levar o evangelho aos povos. Do outro lado do mundo, no sul da Índia sob domínio britânico, havia o costume de consagrar meninas aos templos. Elas eram criadas ali para o serviço do templo e ficavam expostas à exploração. A lei indiana só proibiu essa prática em 1948.
Ouro, prata e pedras preciosas
Elisabeth Elliot conta, a partir das lembranças da própria Amy, uma cena de domingo em Belfast. Voltando da igreja, os irmãos Carmichael viram uma senhora pobre carregando uma trouxa pesada e pararam para ajudá-la. As pessoas respeitáveis que passavam olhavam com reprovação. Quando o grupo passou por um chafariz da rua, veio a Amy, com força, o texto de 1 Coríntios 3: há quem construa com ouro, prata e pedras preciosas, há quem construa com madeira, feno e palha, e o fogo provará a obra de cada um. Ela não olhou para trás. Naquela tarde, em casa, resolveu diante de Deus o rumo da própria vida.
Nesse capítulo, Paulo fala do alicerce antes de falar da obra, e o alicerce é o próprio Cristo. A jovem de Belfast foi atraída pelo que permanece, e o que permanece é o que se constrói sobre ele.
Em meados da década de 1880, Amy começou uma classe bíblica aos domingos com as moças das fábricas. O trabalho cresceu até ganhar um salão próprio, o Welcome Hall. Em 1887, ela ouviu Hudson Taylor numa reunião ligada a Keswick. Robert Wilson, um dos fundadores da convenção, recebeu Amy na casa dele, perto de Keswick, e ela passou a viver com a família dele.
Keswick falava muito de entrega e de consagração. Amy levou isso a sério pelo resto da vida, e às vezes escreveu sobre renúncia com uma intensidade que pesa sobre quem já se sente em dívida com Deus. Por isso vale pôr o fundamento onde a Escritura o põe. Paulo diz que vive pela fé no Filho de Deus, “que me amou e se entregou por mim” (Gálatas 2:20, NVI). João escreve: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1 João 4:19, NVI). A vida consagrada nasce da união com Cristo e responde a um amor recebido primeiro. Tudo o que Amy entregou depois foi resposta a esse amor.
O momento decisivo
Junto a um chafariz de Belfast, depois de ajudar uma senhora pobre sob o olhar reprovador dos outros, Amy foi alcançada pelas palavras de 1 Coríntios 3 sobre a obra que o fogo prova. Naquela tarde, entregou ao Senhor o rumo da própria vida. A Índia, as crianças e os anos de cama vieram depois, e cada um deles encontrou Amy já entregue a Cristo.
Para longe de casa
Em 1892, Amy entendeu que Deus a chamava para partir. Procurou a China Inland Mission e foi recusada por causa da saúde. No ano seguinte, 1893, embarcou para o Japão como a primeira missionária enviada por Keswick. Ficou cerca de quinze meses e precisou sair doente. Passou pelo Ceilão, voltou à Inglaterra em 1894 e, em novembro de 1895, chegou ao sul da Índia, enviada por uma sociedade missionária anglicana. Nunca mais voltou para casa.
Repare no começo dessa história: uma recusa por saúde, uma volta por doença. A fragilidade que marcaria o fim da vida de Amy já estava ali no começo do serviço. Deus enviou uma mulher de corpo frágil, e foi nela que o seu poder se mostrou por mais de meio século.
A primeira menina chegou numa manhã de março
A própria Amy conta essa noite no livro Gold Cord. Em março de 1901, ela e as companheiras tinham acabado de chegar de uma viagem feita de noite, por causa do calor. Naquela mesma noite, uma menina de sete anos saiu sozinha da casa ligada ao templo, onde meninas eram criadas para uma vida de exploração. Atravessou a rua da vila, passou pelos muros do templo, e ninguém a deteve. Uma mulher bondosa a encontrou e a abrigou até o dia seguinte. De manhã, a criança foi levada a Amy. As biografias a chamam de Preena.
Uma criança atravessou a noite, os muros não a seguraram, uma mulher desconhecida a acolheu no caminho. Foi por essa porta, aberta por Deus, que começou a obra de Dohnavur.
Outras crianças vieram. Amy e os colegas já moravam em Dohnavur, na região de Tinnevelly, e ali a casa se tornou refúgio para meninas em perigo. Em 1912, abriu-se um hospital; a partir de 1918, a casa recebeu também meninos. Nem todos viram isso com bons olhos. Alguns anos depois do começo, conta Amy em Gold Cord, um processo na justiça expôs a obra ao público, e por meses ficou mais difícil proteger as crianças.
As crianças a chamavam de Amma
Na língua tâmil, falada na região, “Amma” quer dizer mãe. Era assim que as crianças chamavam Amy. A mulher que não se casou recebeu de Deus uma casa cheia de filhos. Ali, crianças tiradas do perigo cresceram ouvindo o evangelho.
Em 1927, a obra foi registrada como Dohnavur Fellowship, a Comunhão de Dohnavur. Amy continuava ali, mais de trinta anos depois de chegar à Índia, cuidando de uma família que não parava de crescer.
Vinte anos num quarto
Em 1931, uma queda grave quebrou a perna de Amy. Ela nunca se recuperou de todo. Passou os quase vinte anos seguintes praticamente inválida, quase sempre de cama, e em 1948 caiu outra vez. A mulher acostumada a viajar, a buscar crianças e a tomar decisões passou a depender de outros para quase tudo.
Do quarto, ela continuou a acompanhar a obra, a escrever e a preparar quem a sucederia, missionários e indianos. Dali saíram Gold Cord (1932), Rose from Brier (1933), Gold by Moonlight (1935) e outros livros. Rose from Brier merece um lugar especial nesta história. Da cama, Amy escreveu um livro inteiro de cartas para quem, como ela, estava doente. A mulher tirada de cena serviu justamente os que estavam como ela.
Ninguém precisa explicar a queda de Amy para ver a fidelidade de Deus depois dela. Basta voltar ao versículo que abre esta página. Paulo tinha pedido ao Senhor que tirasse dele um sofrimento, e a resposta veio como promessa: “Minha graça é suficiente para você”. A graça é suficiente agora, na cama, na tarde comprida, no corpo que já não obedece. E o Senhor acrescenta que o seu poder se aperfeiçoa na fraqueza. O poder de Cristo encontra lugar exatamente onde as nossas forças acabaram, e vem repousar sobre quem já não consegue se levantar sozinho.
É por isso que Paulo se gloria nas fraquezas. Nelas a força de Cristo aparece sem disfarce, e ninguém a confunde com a força de Paulo. No quarto de Dohnavur, ficou visível o que sempre tinha sustentado a obra: a graça de Deus, desde o primeiro dia.
A vida inteira oferecida a Deus, de que fala Romanos 12:1, cabe também num quarto: a oração pelos que estão longe, uma carta escrita com a mão cansada, a paciência com quem nos ajuda a levantar.
Amy morreu em Dohnavur em 18 de janeiro de 1951, aos 83 anos, mais de meio século depois de chegar à Índia, sem nunca ter voltado para casa. As crianças a lembravam por um só nome: Amma. A obra que ela começou continua em Dohnavur até hoje.
Muitos anos antes, junto a um chafariz de Belfast, a jovem Amy tinha ouvido as palavras sobre a obra que o fogo prova. Elas cabem aqui, no fim. O alicerce é Cristo, e o Senhor, que prova a obra de cada um, vê também o que se faz com fidelidade numa cama, sustentado pela mesma graça.
“Se alguém constrói sobre esse alicerce usando ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno ou palha, sua obra será mostrada, porque o Dia a trará à luz; pois será revelada pelo fogo, que provará a qualidade da obra de cada um. Se o que alguém construiu permanecer, esse receberá recompensa.”
1 Coríntios 3:12-14 (NVI)
Também humano: o corpo frágil e a vontade firme
A saúde de Amy foi frágil desde a juventude. A missão para a China a recusou por isso, e ela precisou deixar o Japão doente. Os anos de cama encerraram uma vida inteira de corpo frágil.
Amy também tinha uma personalidade forte. Elisabeth Elliot, na biografia que escreveu, mostra essa força sem esconder as fraquezas. A firmeza com que Amy se apegava à visão que tinha recebido às vezes gerou conflitos com outros missionários. Em 1925, depois de um conflito com um jovem missionário, ela rompeu com a sociedade missionária anglicana a que a obra estava ligada. Iain Murray vê nesse episódio uma defesa da inspiração plena das Escrituras. Amy registrou no diário que aquele foi um dos tempos mais tristes da vida dela, e não cabe a nós julgar quem não pode mais se explicar.
Contamos isso para que você veja Amy como ela foi: uma pecadora salva pela graça, como cada um de nós. A mesma graça que sustentou a fraqueza do corpo cobriu também as falhas do caráter. Em Dohnavur, Deus trabalhou com uma filha amada e imperfeita, e fez dela uma mãe para centenas de crianças.
O que aprendemos com Amy Carmichael
- O amor de Cristo vem primeiro: antes de Amy entregar qualquer coisa, Cristo a amou e se entregou por ela. Toda obediência cristã é resposta a esse amor. Se você se sente sempre em dívida com Deus, comece de novo pelo que ele já fez por você na cruz.
- A graça que sustenta a obra sustenta o fim das forças: a mesma graça que levou Amy à Índia a guardou nos vinte anos de cama. A promessa de 2 Coríntios 12:9 vale para a sala da escola bíblica e vale para a poltrona perto da janela.
- O Reino não depende de quanto ainda conseguimos fazer: o Reino é de Deus, e ele o sustenta. A oração continua sendo serviço, e talvez agora você tenha para ela o tempo que antes não tinha. Uma intercessão fiel, uma carta, a gratidão a quem cuida de você: nada disso é pouco nas mãos do Deus cujo poder se aperfeiçoa na fraqueza.
Perguntas para reflexão
- O que você deixou de conseguir fazer para Deus, e como você tem se visto desde então?
- Que serviço ainda cabe nos seus dias de agora: orar por alguém pelo nome, escrever uma palavra de consolo, receber cuidado com gratidão?
- Em que ponto da sua vida você precisa ouvir hoje, da boca do Senhor, que a graça dele é suficiente?
Oração
Senhor Jesus, tu sabes o que eu fazia e já não consigo fazer. Às vezes me sinto sem lugar no teu Reino. Lembra-me de que, antes de eu te servir, tu me amaste e te entregaste por mim. Eu te agradeço porque a tua graça é suficiente para mim hoje, nesta casa, com este corpo. Ensina-me a receber cuidado sem vergonha e mostra-me o serviço que ainda cabe nos meus dias: orar pelos que estão longe, escrever uma palavra de consolo, esperar em ti com paciência. Que o teu poder repouse sobre a minha fraqueza. Amém.
Fontes e para ler mais
- Elisabeth Elliot. Amy Carmichael: um legado de renúncia e entrega. São José dos Campos: Fiel, 2023. Título original: A Chance to Die: The Life and Legacy of Amy Carmichael (Old Tappan: Revell, 1987). A biografia mais completa e mais honesta sobre Amy.
- Janet e Geoff Benge. Amy Carmichael: resgatadora de joias preciosas (série Heróis Cristãos Ontem & Hoje). Shedd Publicações, 2018. Leitura mais leve.
- Amy Carmichael. Gold Cord: the story of a fellowship. Londres: SPCK, 1932 (em inglês).
- Amy Carmichael. Rose from Brier. Londres: SPCK, 1933 (em inglês).
- Jocelyn Murray. “Carmichael, Amy Beatrice”. Em Gerald H. Anderson (org.), Biographical Dictionary of Christian Missions. Nova York: Macmillan Reference USA, 1998, p. 116 (em inglês).
- Iain H. Murray. Amy Carmichael: Beauty for Ashes. Edimburgo: Banner of Truth (em inglês).
- Jennifer Woodruff Tait. “God told her to go”. Christian History, n. 148, 2023 (em inglês).
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“Portanto, também nós, uma vez que estamos rodeados por tão grande nuvem de testemunhas, livremo-nos de tudo o que nos atrapalha e do pecado que nos envolve, e corramos com perseverança a corrida que nos é proposta, tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé (...)” (Hebreus 12:1-2, NVI)
Se a história de Amy tocou em você a sensação de estar sempre devendo a Deus, o estudo de Romanos 8 mostra o chão firme da graça: não há nenhuma condenação para os que estão em Cristo Jesus (Romanos 8:1).