Um sacrifício vivo começa pela misericórdia
Você levanta cedo, prepara o café, responde as mensagens do trabalho, passa no mercado, lembra do remédio de alguém. No intervalo do almoço, entre uma tarefa e outra, vem aquele pensamento: é pouco. Você queria viver inteiramente para Cristo, e o dia parece feito só de coisas pequenas.
Talvez você já tenha imaginado que fé de verdade seria largar tudo e partir para o campo missionário. Esse desejo de se dar por inteiro é bonito. Ele nasce de amor. Às vezes, porém, ele vira uma inquietação que não descansa, uma sensação de estar sempre devendo. Paulo escreveu para quem quer se entregar assim, e chamou essa entrega de sacrifício vivo.
O versículo começa num lugar que costuma passar despercebido. Antes do pedido, vem o “Portanto”. Paulo passou onze capítulos contando o que Deus já fez. Falou da justificação pela fé, da certeza de que já não há condenação para quem está em Cristo, que ele desenvolve em Romanos 8, e da misericórdia de Deus nos capítulos seguintes. Só então ele pede, e pede “pelas misericórdias de Deus” (Romanos 12:1, NVI).
A ordem importa. Primeiro, o presente. Depois, a entrega. Quem se oferece a Deus nesse versículo é alguém que já foi recebido por misericórdia. Por isso pode se entregar sem medo, e sem a conta de quanto ainda falta.
A vida de hoje também é oferta
No grego, Paulo pede aos irmãos que ofereçam o próprio corpo. A NVI traduz por “que se ofereçam”: vocês mesmos, inteiros. É a vida concreta, com as mãos que cortam o pão, digitam o relatório, dobram a roupa e seguram a mão de alguém na sala de espera do hospital.
E o sacrifício é vivo. Os sacrifícios do templo terminavam no altar. Este continua respirando: levanta de manhã, pega o ônibus, volta para casa à noite e se oferece de novo no dia seguinte, no lugar onde você está.
Paulo chama isso de culto racional, e a própria NVI anota no rodapé outra tradução possível: espiritual. O culto acontece também numa terça-feira comum, longe do banco da igreja.
Abraão ajuda a enxergar isso. Quase sempre lembramos dele pela partida corajosa. Mas o texto de Hebreus guarda outra cena:
“Pela fé peregrinou na terra prometida como se estivesse em terra estranha; viveu em tendas, bem como Isaque e Jacó, coerdeiros da mesma promessa.” (Hebreus 11:9, NVI)
Tendas armadas e desarmadas. Altares erguidos pelo caminho, em Siquém e perto de Betel (Gênesis 12:6-8). Uma espera que atravessou três gerações. Boa parte da fé de Abraão foi vivida em dias assim, sem nada de extraordinário para contar.
Deus chama algumas pessoas para longe de casa, e esse chamado é precioso. Para muitas outras, a entrega inteira começa na mesa da cozinha, no escritório, no cuidado com quem está perto. A história do Irmão Lourenço, que passou anos entre as panelas de uma cozinha, fala da presença de Deus nesse lugar. Romanos 12 fala do que você pode oferecer ali.
Se a sensação de estar sempre devendo vem de uma culpa antiga, que não vai embora mesmo depois do arrependimento, talvez ajude ler Você já pediu perdão e a culpa continua?
Para viver hoje
Amanhã cedo, antes de pegar o celular, diga a Deus pelo nome as tarefas do dia: o trabalho, a casa, a pessoa de quem você vai cuidar. Ofereça cada uma a ele, em poucas palavras. Depois escolha uma delas e faça como oferta, com atenção e sem pressa. Se ela sair imperfeita, a oferta continua de pé, porque quem a recebe é misericordioso.
Oração
Pai, eu te agradeço pelas tuas misericórdias, que chegaram antes de eu oferecer qualquer coisa. Tu conheces este desejo de viver inteiramente para ti, e conheces também a inquietação que às vezes vem com ele. Hoje eu me ofereço a ti do jeito que estou, com o trabalho, a casa e as pessoas que colocaste perto de mim. Recebe o meu dia comum como culto. E acalma o meu coração quando eu achar que é pouco. Em nome de Jesus. Amém.
Continue a leitura.
Se quiser ver com calma a misericórdia que vem antes do “Portanto”, o estudo de Romanos 8 percorre o capítulo da nenhuma condenação.