Voltar à Nuvem de Testemunhas

Nuvem de Testemunhas · Personagem bíblico

Rute: quando você se sente de fora e Deus abre lugar para você

Rute chegou a Belém estrangeira, viúva e sem nada. A história dela é para você, que se sente de fora na fé: Deus já abriu lugar para você.

Quem foi

Rute, a moabita que encontrou refúgio no Deus de Israel

  1. Rute 1:16-17: escolhe ficar com Noemi, com o povo dela e com o Deus dela.
  2. Rute 2:12: nos campos de Boaz, é recebida como quem veio buscar refúgio sob as asas do Senhor.
  3. Rute 4:13-17: casa-se com Boaz; nasce Obede, avô de Davi.
Campo de cevada madura ao entardecer, com feixes amarrados e espigas caídas entre eles, e colinas ao fundo

Talvez você tenha voltado para casa agora, depois do culto. Cantou, ouviu a Palavra, e na saída todos se cumprimentavam como quem se conhece desde sempre. Ninguém puxou conversa com você. Você veio de uma família sem Deus, ou mudou de cidade, ou está recomeçando do zero. E uma pergunta fica no peito, sem voz: por que haveria lugar aqui para alguém como eu?

A Bíblia tem um livro inteiro sobre uma mulher que chegou de fora. Ela não tinha direito, nem terra, nem família no lugar para onde foi. E encontrou ali um Deus que já estava abrindo lugar para ela.

O mundo em que Rute viveu

A história começa assim: “Na época dos juízes houve fome na terra. Um homem de Belém de Judá, com a mulher e os dois filhos, foi viver por algum tempo nas terras de Moabe” (Rute 1:1, NVI). O homem se chamava Elimeleque, e a mulher, Noemi. O texto não diz se a decisão de partir foi certa. Diz que houve fome e que a família partiu.

Em Moabe, Elimeleque morreu. Os dois filhos se casaram com moças do lugar, Orfa e Rute, e anos depois morreram também. Ficaram três viúvas sem filhos, numa época em que uma viúva sem filhos ficava sem proteção e sem sustento. Rute tinha ainda outro peso: era moabita, de um povo que a Lei mantinha afastado da assembleia do Senhor (Deuteronômio 23:3).

A Lei de Israel, porém, tinha cuidado com gente assim. Na colheita, o dono do campo não devia colher até as bordas nem voltar para buscar o que tinha caído. Isso ficava “para o estrangeiro, para o órfão e para a viúva” (Deuteronômio 24:19, NVI). E havia o resgatador: o parente mais próximo, que resgatava a terra de um parente empobrecido (Levítico 25:25). No livro de Rute, ele cuida também da descendência e do nome da família. Guarde essas duas coisas. O livro inteiro depende delas.

Três viúvas numa estrada

Um dia, Noemi soube que “o Senhor viera em auxílio do seu povo, dando-lhe alimento” (Rute 1:6, NVI), e decidiu voltar para Belém. As duas noras saíram com ela. No caminho, Noemi insistiu que voltassem para a casa das próprias mães e desejou que o Senhor desse a cada uma um novo lar. Elas choraram. “Depois Orfa deu um beijo de despedida em sua sogra, mas Rute ficou com ela” (Rute 1:14, NVI).

Orfa voltou, e o texto não a condena. Rute ficou. E quando Noemi insistiu mais uma vez, ela respondeu com as palavras que atravessaram os séculos:

“Não insistas comigo que te deixe e que não mais te acompanhe. Aonde fores irei, onde ficares ficarei! O teu povo será o meu povo e o teu Deus será o meu Deus! Onde morreres morrerei, e ali serei sepultada. Que o Senhor me castigue com todo o rigor, se outra coisa que não a morte me separar de ti!”

Rute 1:16-17 (NVI)

Repare no centro dessa promessa. Rute escolheu a sogra, escolheu um povo estrangeiro e escolheu o Deus de Israel. E jurou pelo nome do Senhor. A lealdade dela a Noemi nasceu junto com a fé no Deus de Noemi. Era uma estrada sem garantia nenhuma: uma viúva moabita indo para uma terra onde não tinha ninguém.

Estrada de terra descendo colinas ao amanhecer, com duas trilhas de sandálias seguindo juntas e uma voltando no sentido contrário
Orfa voltou para Moabe. Rute seguiu com Noemi (Rute 1:14-16).

Voltar amarga

Quando as duas chegaram a Belém, a cidade se agitou, e as mulheres perguntavam se aquela era mesmo Noemi. Ela respondeu:

“Não me chamem Noemi, melhor que me chamem de Mara, pois o Todo-poderoso tornou minha vida muito amarga! De mãos cheias eu parti, mas de mãos vazias o Senhor me trouxe de volta.” (Rute 1:20-21, NVI)

A Bíblia registra essa queixa sem repreender Noemi. Ela tinha enterrado o marido e os dois filhos. E, mesmo na amargura, era do Senhor que ela falava. Ela sabia que tudo o que tinha acontecido estava nas mãos dele, e isso doía. Talvez você também já tenha voltado de algum lugar de mãos vazias.

Só que Noemi não voltou de mãos vazias. Ao lado dela estava Rute. E o capítulo termina com um detalhe que parece só uma data: “Elas chegaram a Belém no início da colheita da cevada” (Rute 1:22, NVI). O Deus que Noemi acusava já tinha preparado os campos.

Nos campos de Boaz

Rute pediu à sogra licença para ir aos campos recolher as espigas que ficavam para trás, como a Lei permitia aos pobres e aos estrangeiros. E o texto diz: “Casualmente entrou justo na parte da plantação que pertencia a Boaz, que era do clã de Elimeleque” (Rute 2:3, NVI). Para Rute, foi por acaso. Para quem lê o livro inteiro, é a mão de Deus guiando os passos de uma estrangeira até o campo do homem que poderia resgatar a família.

Boaz chegou, viu a moça e perguntou quem ela era. Mandou que ficasse no campo dele, junto das servas, e que bebesse da água dos seus servos. Rute se prostrou diante dele.

“Ela inclinou-se e, prostrada, rosto em terra, exclamou: ‘Por que achei favor a seus olhos, ao ponto de o senhor se importar comigo, uma estrangeira?’” (Rute 2:10, NVI)

A resposta de Boaz mostra que a notícia da fidelidade dela tinha chegado antes dela: “Contaram-me tudo o que você tem feito por sua sogra, depois que você perdeu o seu marido: como deixou seu pai, sua mãe e sua terra natal para viver com um povo que você não conhecia bem” (Rute 2:11, NVI). Como Abraão, ela tinha deixado a casa do pai e a terra onde nasceu para viver entre o povo do Senhor. E Boaz terminou com a bênção que abre esta página: ela viera buscar refúgio sob as asas do Senhor, o Deus de Israel.

Boaz foi além do que a Lei pedia. De propósito, mandou que os ceifeiros tirassem “algumas espigas dos feixes” e as deixassem cair para que ela as recolhesse (Rute 2:16, NVI). Rute voltou para casa naquela tarde com muita cevada. Quando Noemi ouviu o nome do dono do campo, algo nela acordou: “Seja ele abençoado pelo Senhor, que não deixa de ser leal e bondoso com os vivos e com os mortos!” E acrescentou: “Aquele homem é nosso parente; é um de nossos resgatadores!” (Rute 2:20, NVI).

A mulher que tinha dito que o Senhor se colocara contra ela agora reconhecia que ele continuava leal e bondoso. Deus não tinha abandonado Noemi nem por um dia da estrada de Moabe. Rute ficou nos campos de Boaz “até acabarem as colheitas de cevada e de trigo” (Rute 2:23, NVI).

O momento decisivo

Prostrada num campo que não era seu, Rute fez a pergunta de quem não esperava nada: por que achei favor, sendo estrangeira? A resposta veio em forma de bênção. Ela tinha vindo buscar refúgio sob as asas do Senhor, o Deus de Israel. Antes de Rute ter terra, marido ou nome em Belém, Deus já a tinha recebido debaixo das suas asas. O favor chegou primeiro.

Um pedido à noite

Terminadas as colheitas, Noemi quis garantir o futuro da nora: “Minha filha, tenho que procurar um lar seguro, para a sua felicidade” (Rute 3:1, NVI). O plano foi dela. Rute deveria ir à eira, onde Boaz trabalhava na separação dos grãos, e apresentar-se a ele depois que ele se deitasse. O texto conta sem julgar Noemi, e nós também não a julgamos.

Rute foi. À noite, Boaz perguntou quem estava ali. “Sou sua serva Rute”, disse ela. “Estenda a sua capa sobre a sua serva, pois o senhor é resgatador” (Rute 3:9, NVI). Estender a capa sobre uma mulher era sinal de tomá-la como esposa. Era um pedido de casamento feito por uma viúva estrangeira, com base no direito do resgate. Repare na imagem: Boaz tinha falado das asas do Senhor, sob as quais Rute buscara refúgio. Agora ela pedia que Boaz estendesse sobre ela a sua capa. O abrigo de Deus ia chegar a ela pelas mãos de um homem justo.

E Boaz foi justo. “O Senhor a abençoe, minha filha! Este seu gesto de bondade é ainda maior do que o primeiro, pois você poderia ter ido atrás dos mais jovens, ricos ou pobres!” (Rute 3:10, NVI). Ele a honrou: “Todos os meus concidadãos sabem que você é mulher virtuosa” (Rute 3:11, NVI). E não resolveu nada às escondidas. Havia um parente mais próximo, com direito anterior ao dele, e Boaz levaria o assunto à luz do dia.

Portão de pedra de uma cidade antiga pela manhã, com bancos de pedra junto à entrada
Boaz resolveu a questão diante dos anciãos, junto à porta da cidade (Rute 4:1-2).

O resgatador na porta da cidade

Na manhã seguinte, “Boaz subiu à porta da cidade e sentou-se, exatamente quando o resgatador que ele havia mencionado estava passando por ali” (Rute 4:1, NVI). Exatamente quando. De novo, a mão discreta de Deus.

Diante dos líderes da cidade, Boaz apresentou o caso. O parente mais próximo aceitou comprar a terra de Elimeleque. Mas, quando soube que o resgate incluía Rute, para manter o nome do falecido, recuou: “Nesse caso não poderei resgatá-la, pois poria em risco a minha propriedade. Resgate-a você mesmo” (Rute 4:6, NVI).

Então Boaz assumiu tudo. A Lei mandava que o parente próximo resgatasse a terra da família (Levítico 25:25) e que o cunhado desse descendência ao irmão que morreu sem filhos (Deuteronômio 25:5). Boaz não era cunhado de Rute, mas assumiu as duas responsabilidades: “Também estou adquirindo o direito de ter como mulher a moabita Rute, viúva de Malom, para manter o nome do falecido sobre a sua herança” (Rute 4:10, NVI). E disse aos que estavam ali: “Vocês hoje são testemunhas disso!”. O outro parente protegeu a própria herança. Boaz aceitou arriscar a dele para manter vivo o nome de um parente que tinha morrido.

Uma estrangeira na história de Davi

“Boaz casou-se com Rute, e ela se tornou sua mulher.” E o texto diz de onde veio o filho: “o Senhor concedeu que ela engravidasse dele e desse à luz um filho” (Rute 4:13, NVI). As mulheres de Belém, que tinham ouvido Noemi se chamar de amarga, disseram a ela:

“Louvado seja o Senhor, que hoje não a deixou sem resgatador! Que o seu nome seja celebrado em Israel! O menino lhe dará nova vida e a sustentará na velhice, pois é filho da sua nora, que a ama e que lhe é melhor do que sete filhos!” (Rute 4:14-15, NVI)

O menino se chamou Obede. “Este foi o pai de Jessé, pai de Davi” (Rute 4:17, NVI). A moabita que chegou a Belém sem nada tornou-se bisavó do rei de Israel.

E a história vai mais longe. Muitos séculos depois, na genealogia que abre o Evangelho de Mateus, o nome dela está lá: “Boaz gerou Obede, cuja mãe foi Rute” (Mateus 1:5, NVI). Da descendência de Rute nasceu Jesus Cristo, o Redentor. Boaz resgatou uma família com a terra que comprou. Cristo nos resgatou por um preço infinitamente maior.

Pedro escreve a pessoas que tinham herdado da família uma vida sem Deus: “não foi por meio de coisas perecíveis como prata ou ouro que vocês foram redimidos da sua maneira vazia de viver, transmitida por seus antepassados, mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha e sem defeito” (1 Pedro 1:18-19, NVI). O parente que recusou o resgate para não pôr em risco a própria herança mostra, por contraste, o que Boaz aceitou arriscar. E Cristo deu a própria vida. Deus enviou o seu Filho “a fim de redimir os que estavam sob a Lei, para que recebêssemos a adoção de filhos” (Gálatas 4:5, NVI). Quem estava de fora, como Rute, é recebido na família de Deus como filho.

Também humanas: a amargura de Noemi e a fragilidade de Rute

Em Rute, o livro mostra fragilidade: estrangeira, viúva, pobre, dependente das espigas que os outros deixavam cair. Ela não tinha como garantir o próprio futuro, e tudo o que recebeu foi recebido de graça.

A amargura está em Noemi. Ela chegou a Belém dizendo que o Todo-poderoso lhe tinha trazido desgraça. O livro não esconde essa queixa nem a castiga. Deixa que Deus responda com fatos: a colheita, o campo certo, o resgatador, o menino no colo dela. Noemi terminou a história ouvindo as vizinhas louvarem o Senhor. Se você carrega uma dor que já virou amargura, saiba que o Senhor é paciente com quem fala com ele a partir das próprias feridas.

O que aprendemos com Rute

  1. Deus abre lugar para quem estava de fora: o Senhor recebeu debaixo das suas asas uma moabita pobre e viúva, antes que ela tivesse qualquer coisa para oferecer. A sua origem, a sua família ou a sua história não fecham a porta que ele mesmo abriu para você em Cristo.
  2. O resgate tem um preço, e o Redentor o pagou: Boaz aceitou um custo que o outro parente recusou. Cristo pagou o nosso resgate com o próprio sangue e nos deu a adoção de filhos. Todos os que estão na família de Deus entraram por resgate.
  3. Deus trabalha no comum: uma colheita, uma estrada, um campo escolhido “casualmente”, um parente que passa “exatamente quando”. O Senhor governa os dias sem brilho. E ele usa pessoas comuns: quem hoje se sente de fora pode amanhã ser, na igreja, o Boaz que puxa conversa com quem acabou de chegar.

Perguntas para reflexão

  1. Em que ponto da sua fé você ainda se sente de fora, esperando provar que merece estar ali?
  2. Olhando para trás, onde você consegue ver hoje a mão de Deus em algo que, na época, pareceu acaso?
  3. Quem chegou há pouco à sua igreja e precisa de alguém que abra lugar, como Boaz abriu para Rute?

Oração

Senhor, tu conheces de onde eu venho e o que eu carrego. Muitas vezes me sinto de fora, como se não tivesse lugar entre o teu povo. Eu te agradeço porque tu recebeste Rute debaixo das tuas asas antes que ela tivesse qualquer coisa a oferecer, e porque em Cristo tu me resgataste e me recebeste na tua família. Ensina-me a descansar nesse abrigo. Abre os meus olhos para a tua mão nos dias comuns. E faz de mim alguém que acolhe quem acabou de chegar, como Boaz acolheu. Amém.

Fontes e para ler mais

  • Arthur E. Cundall e Leon Morris. Juízes e Rute: introdução e comentário (Série Cultura Bíblica). São Paulo: Vida Nova, 1986.
  • Iain M. Duguid. Estudos bíblicos expositivos em Ester e Rute: a graça de Deus em favor dos marginalizados e indignos. São Paulo: Cultura Cristã, 2016.
  • Daniel I. Block. Juízes e Rute: comentário exegético. São Paulo: Vida Nova, 2024. Comentário técnico, para quem quer aprofundar.
  • John MacArthur. Doze mulheres extraordinariamente comuns. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2019.
  • C. F. Keil e F. Delitzsch. Biblical Commentary on the Old Testament: Joshua, Judges, Ruth. Trad. James Martin. Edimburgo: T&T Clark, 1869 (em inglês).
  • Matthew Henry. Commentary on the Whole Bible (em inglês).
  • Albert Barnes. Notes on the Bible (em inglês).

Encontre recomendações de leitura e biografias cristãs na nossa Curadoria.

Conheça outras testemunhas.

“Portanto, também nós, uma vez que estamos rodeados por tão grande nuvem de testemunhas, livremo-nos de tudo o que nos atrapalha e do pecado que nos envolve, e corramos com perseverança a corrida que nos é proposta, tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé (...)” (Hebreus 12:1-2, NVI)